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quinta-feira, 7 de julho de 2011

NOVOS TRABALHOS, NOVAS VIDAS

                 FOTO DE CAPA DE PAULO OLIVEIRA


30º  E ULTIMO CAPITULO

NOVOS TRABALHOS, NOVAS VIDAS
Nestes anos - apenas o espaço de cinco anos - muita coisa mudou na vida desta família. As filhas mais velhas já estavam em idade namoradeira, a vida tinha levado novos caminhos e Deodato estava a trabalhar em Gândara dos Olivais, bem perto de Leiria, como encarregado de obras.
Pelos campos da beira-rio, o rio Liz, encontrou uns terrenos bons para cultivo de tomate, pertenciam a uma quinta antiga a que chamavam, os Moinhos do Padre, e que ficava entre pinhais e o rio, no lugar de Barreiros, freguesia de Amor.
Nessa época já Deodato tinha comprado uma camioneta e um tractor, velhos, era verdade, passava os fins de semana com o seu amigo João - que era mecânico - de volta das ditas peças, mas uma coisa ele sabia fazer como ninguém, ora vejamos: agora, que as filhas já estavam crescidas, meter as mulheres da casa - e eram sete - todas a trabalhar para ele, era inevitável. 
Alugou os ditos terrenos, que tinham duas casas já em degradação, e os tais moinhos de água, com casa de habitação, mais ou menos habitáveis, e que eram pois os Moinhos do Padre e que davam nome à quinta. Havia uma casa a cada ponta da quinta, onde se instalaram, e nesse primeiro ano foi na ponta norte, um pouco mais longe de tudo, mas onde lhes pareceu ser a melhor opção.
Opção obviamente tomada por Deodato, já que entendeu começar a cultivar pelo lado norte, começando a lavrar toda essa zona de terreno, não apelava a rancho exterior para o trabalho, tudo era feito em família, e ele, que tinha até o trabalho dele, uma vez chegado a casa ia preparar o terreno para Julieta e as filhas trabalharem no outro dia.
Já estavam habituadas, o trabalho não lhes metia medo, chegavam lá em Abril, para começar, e acabavam em Setembro, altura em que voltavam de novo, para passarem o Inverno, à sua casa na Atalaia.
Mas não era bem o que Dalila queria para ela apesar de gostar de conhecer coisas novas, sítios novos, sair dali da sua terrinha bem pequena, e ali já haver até uma vida de usos e de costumes totalmente diferentes, ser uma terra maior, com fábricas de plástico, onde trabalhava muita gente.
Havia vacas a pastar por todo o lado, que ainda faziam muito trabalho agrícola, e mulheres com canastras à cabeça, a caminho dos terrenos aonde levavam as merendas. Existia ainda uma igreja onde se celebrava missa todos os dias e, no largo da igreja, o arraial onde tocava um conjunto, em geral música de baile, mas onde ninguém dançava por ser na porta da igreja.
O trabalho não parava durante esses seis meses: plantar, sachar, regar e, logo em Agosto, começavam a apanhar o tomate e a levá-lo para a fábrica, pelo menos até Setembro, carradas e mais carradas, quase apanhadas de empreitada.
Não se podia deixar estragar, logo que estivesse maduro, era só encaixotar - nessa época entrava todo em caixas na fábrica - e o rancho caseiro levava dois dias a arranjar uma carrada. Depois Deodato ia levá-lo à fábrica quando chegava, já à noite.
Setembro era o voltar a casa, matar saudades da família e amigas, arranjar trabalho de Inverno, e tudo voltava ao mesmo até regressar a Primavera, em que chegava de novo a hora da partida para Barreiros.
Assim no segundo ano foi só repetir, tudo de novo do mesmo jeito, só com a diferença de que ficaram no moinho de baixo, e assim mais perto dos Barreiros, o que facilitava, para irem às compras até era mais rápido.
Tudo se repetia com a agravante de que a avó Joaquina já estava doente, já não conhecia as pessoas nem já a família, eram precisos mil atenções, com medo de que não se perdesse ela, e depois, nos últimos meses, já ficava deitada, precisava ainda de mais cuidados, mas era inofensiva e calma.
Nesse ano um dado novo andava a fervilhar na cabeça de Dalila: o ano da seara estava a findar e ela já estava decidida a mudar a sua situação de vida, queria casar, e o namorado também. Trabalhavam seis meses para o pai, chegavam ao fim e o pai não lhes dava nada, se casasse trabalhava para ela, e não tinha de aturar o pai.
E foi essa a novidade, acabaram a seara, ela e Julieta ainda foram trabalhar para outras searas, ganhar dinheiro, e com esse dinheiro foram a um armazém de Leiria comprar os cobertores para o enxoval de Dalila, depois, voltaram para a Atalaia.

PREPARATIVOS DE CASAMENTO
Seguidamente voltou ao trabalho da azeitona para ganhar mais algum dinheiro, a fim de comprar mais algumas coisas, ultimar o enxoval, fazer a participação às famílias e fazer os convites pessoalmente, porque os pobres na época não tinham cartões de convite.
Os preparativos já vinham sido feitos desde que se começou a falar em tal: guardaram-se galinhas, havia um porco criado no tomatal, encomendaram-se os ovos para os bolos às vizinhas que os costumavam vender.
Foi ainda preciso fazer na mercearia mais algumas encomendas, de coisas que as cozinheiras diziam ser precisas, já contabilizadas de acordo com os convidados presentes no casamento, isto para os bolos e comidas.
Ali não havia cozinheira contratada, tudo era feito pela família e amigas vizinhas, que se dispunham a ajudar na semana do casamento e em tudo o que lhes fosse possível.
Começavam no início da semana. A primeira coisa a fazer era alguns alqueires de bolos de noivo, eram amassados de véspera, à noite, levavam farinha, açúcar, manteiga, raspa de limão e fermento do pão, ficando a levedar durante uma noite.
Eram tendidos de tamanho a gosto, colocados em latas e tabuleiros de ir ao forno, pincelados com gemas de ovo, cozidos em forno de pão a calor médio, e ao serem retirados colocavam-se em tabuleiros de madeira entre folhas de laranjeira.
De seguida eram feitos os bolos secos variados, que não tinham perigo de se estragar e estariam sempre bons mesmo com alguns dias. Nas vésperas era a altura de fazer fritos, arroz doce, matar a criação e preparar as carnes de acordo com as ementas escolhidas.
Havia um costume na aldeia que era o de a noiva fazer a visita a pessoas que, por não poderem, não estariam no casamento, ou a pessoas por quem se tinha estima e mereciam comer uma oferta da noiva, mesmo sem serem convidados. Essa oferta era composta por um prato de arroz doce enfeitado de canela, ou que poderia até ser feito com amêndoas picadas, ou gemas de ovo, ou até simplesmente branco, e depois levava-se também um bolo de noivo, coscorões e alguns bolos miúdos.
Iam duas ou três raparigas e também a noiva levar os pratos a casa das pessoas, e normalmente as pessoas quando devolviam os pratos estes vinham sempre com uma oferta ou algum dinheiro como prenda.
Os padrinhos de Dalila estavam a viver e a trabalhar em França, mandaram-lhe o dinheiro para comprar o vestido de noiva, e deram também a lingerie, que enviaram de Paris, toda branquinha, muito bonita.
O vestido, ela comprou-o em cetim branco, mais renda branca para fazer um encaixe, de corpo de cintura subida, e mangas, era bonitinho e muito elegante. Dalila era cheiinha, mas não gorda, e não quis com roda por uma questão de economia.
Mas numa coisa ela não poupou: no véu. Levou um véu de seis metros, as luvas e grinalda eram emprestadas, de uma moça rica, filha do padeiro, sua amiga, e que tinha casado também nesse Verão.
Foi a sua mestra e amiga, a Dona Ausenda, onde tinha andado durante três meses a aprender costura, que fez o vestido, e ofereceu assim de prenda o seu trabalho, o que foi muito bom, agradável, e bom de agradecer, também.
Deodato tinha comprado as mobílias para a casa de Dalila - como era aliás costume os pais fazerem - mas algumas coisas não lhe agradavam e, na véspera, ainda ameaçou Julieta que se bem lhe parecesse nem iria acompanhar a filha à Igreja nem estaria no casamento.
A mãe ficou aflita, enervadíssima, com medo de que ele cumprisse a ameaça, mas Dalila nem por isso e com um pouco de rebeldia respondeu à mãe que se ele não fosse, ela não deixaria de se casar, já tinha dezoito anos, as leis tinham mudado e ela já não precisava autorização do pai.
Dalila é que fez todas as roupas para as irmãs vestirem no casamento, e até mesmo o seu fato do segundo dia, um saia e casaco azul escuro e uma blusa rendada em azul claro. Contudo, até na véspera do casamento teve de trabalhar toda a noite para acabar as roupas, mas ficou tudo pronto na hora certa.  
O casamento estava marcado para dia 10 de Dezembro de 1967 às 11h30 no Mosteiro de Almoster e assim aconteceu, um dia feliz, no seu casamento por amor, com o amor da sua juventude.
Mas outra coisa a marcou por esse dia feliz, foi aliás no segundo dia do seu casamento: tinha combinado ir almoçar com a sua família e os seus convidados, os noivos chegaram, um pouco atrasados, e já estavam todos à mesa para almoçarem.
Ao chegarem foram cumprimentar as pessoas e quando Dalila chegou junto do pai, estava ele de lágrimas a correrem pela cara. Dalila também ficou emocionada, nunca pensaria ver um dia o seu pai a chorar, e muito menos por ela ter casado, mas aconteceu, como muitas outras coisas têm de acontecer.    
 
LÍDIA FRADE DO LIVRO( A FAZENDA ONDE VEIO A LUZ AO MUNDO)

sábado, 25 de junho de 2011

OS TRABALHOS DO ARROZ



TRABALHOS DO ARROZ

29º CAPITULO

Como é de calcular, Dalila, antes de tudo o mais, trabalhava. E se na quinta dos Faias tinha começado a trabalhar no tomate, depois estivera nas vindimas, na azeitona, e apanha das vides quando chegou a Primavera, e nas mondas do trigo, e dar água à cura, de seguida Dalila iria trabalhar no plantio do arroz e, a seguir, nas mondas do arroz.

Julieta não podia fazer os trabalhos do arroz, tinha uma perna com um problema desde criança que poderia agravar-se com um simples arranhão, e plantar arroz era andar dentro de água, dentro de lama, até quase ao joelho.

Depois Dalila também estava bem acompanhada com várias mulheres da Atalaia, que já estavam habituadas, e foram elas que ensinaram Dalila, e no meio delas foi fácil aprender. Plantar arroz era engraçado, chegava atado em molhinhos pequenos, molhos que uma mulher pudesse agarrar só com uma mão, depois separava três ou quatro pés de plantas e colocava na lama, sempre recuando, umas ao lado das outras, suficientes para preencher a largura do canteiro.


FOI POR AQUI NESTES PAÚIS,,,,  QUE FAZEM PARTE DESTA HISTÓRIA!!!



Ficava assim um trabalho muito certinho, as plantas com parte da rama fora de água, a outra metade dentro da terra e da água, e como era feito a recuar, quando chegavam ao fim estava o canteiro lindo.
Quando acabavam de plantar o paul todo já o que havia sido plantado primeiro tinha crescido e, com ele, as ervas daninhas. Todas as ervas que crescessem facilmente dentro de água se desenvolviam, e aí era preciso arrancá-las. Chegavam assim as mondas, e continuava a ser esse um trabalho divertido para uma moça nova, andar naquele trabalho, era chapinhar um dia inteiro dentro de lama mas não era difícil, depois, bom... havia uma maneira de irem para casa cedo, pelo meio da tarde.
A PONTE QUE DIVIDE A FREGUESIA DE ALMOSTER, POVOA DA ISENTA, E S. NICOLAU SANTARÉM!!!

O grupo de mulheres a que pertencia Dalila fazia todos os dias um acordo verbal, ou talvez mais um desafio. O capataz percorria uma certa área de canteiros de arroz, aquilo que achava razoável para o trabalho de um determinado grupo de mulheres até à noite. A chefe mais sabida do grupo, ou mais conhecedora do trabalho, aceitava ou discutia a empreitada com o capataz, e metiam todas mãos ao trabalho, com garra, e pelas  quatro horas da tarde, mais ou menos, estavam perto de acabar o seu dia de trabalho e voltar para casa, com todo o trabalho acordado já executado.

Por essa época começou a ser implantada uma novidade nas sementeiras do arroz, a sementeira directa já nos canteiros. Começavam a fazer a título experimental, tudo era feito com outra dimensão, e por isso mesmo não podia ser em canteiros como os de plantio manual. A monda também passaria a um processo químico, e todos os outros trabalhos foram sendo alterados e substituídos, o trabalho manual trocado pelo de máquinas.
SEARA DE ARROZ EM MATURAÇÃO!!!

Triste era, nesta época, em tempo de cheias, se chovia muito cedo e os pauis enchiam, sem que os arrozeiros tivessem tempo para retirar o arroz, por não estar ainda devidamente maduro e, por isso mesmo, capaz de ceifar.

Enquanto os trabalhos eram feitos manualmente, era complicado: os ranchos iam ceifando o arroz que ficava espalhado por cima do restolho e, logo a seguir, era atado em molhos, devidamente seco para se retirar do paul e chegá-lo às máquinas debulhadoras, que estavam ali instaladas no paul para esse fim.

AS CHEIAS
Havia anos de muita chuva e antes desses trabalhos concluídos chegavam as cheias, e então era só trabalhar, noite e dia, tentando retirar o mais possível. Se o tempo não chegava eram retiradas as máquinas e o arroz era abandonado.

Os donos choravam, o paul enchia, e na cheia perdia-se tudo, podia-se ver, deslizando, levados pelas águas, os molhos do arroz, boiando sem mais recuperação, enquanto outro ainda tinha ficado na terra por ceifar.
AS CHEIAS DO RIBATEJO!!!

Aquela era a grande cultura, a mais forte, de alguns agricultores da Ponte do Celeiro, e o seu investimento nesta cultura era tal que chegavam a fazer empréstimos bancários para a realizar, apenas um tiro no escuro, sem certeza de nada para o seu pagamento, e assim se empenhavam bens à banca ou a usurários independentes.

Assim se trabalhava com amor, assim se destruíam vidas na tentativa de uma vida melhor, era apenas a luta pela vida, sem direitos a subsídios nem reclamações, apenas acreditando na sorte ou aceitando a desgraça.

O único proveito que podiam retirar das cheias era a renovação dos terrenos pois que, depois da água secar, ficava tudo o que elas tinham trazido enterrado nas lamas, e quando as terras eram trabalhadas de novo, se envolvia e se tornava em fertilizante.

Depois houve a chegada das fábricas de tomate e uma viragem de parte dessas terras a cultivo de tomate, e os donos já tomavam a opção de fazerem arrendamento, para a agricultura de tomate ou até de meloal.
PAUL DAS SALGADAS,,, ENTRE O CASAL DO PAUL E SECORIO!!!

Dalila foi trabalhar com Julieta e um grupo de mulheres para os pauis das Salgadas, para um patrão, o Senhor Pisco, que fazia cultivo de tomate para as fábricas, e de melão, para o mercado.

Faziam ali as suas campanhas de trabalho durante seis meses, eram desde o plantar até ao acabar de todas as cearas, um trabalho certo mas duro, já trabalhavam oito horas, e tudo isso, e Dalila fazia-o ‘com uma perna às costas’ como diria a sua avó.

Desde plantar os tomateiros, sachar, apanhar, depois os meloeiros, semear, sachar, e se fazia muito calor – e se fazia! - eram tapados com palha de arroz para não ficarem queimados do sol - ou ‘chapados’, como na linguagem agrícola se dizia.


Depois, havia o apanhar, no início eram homens, experientes, conhecedores do produto - tinha de ser bom e capaz de ir para o mercado - e mais tarde já poderiam ser as mulheres, menos experientes, pois já estava tudo pronto para apanhar. Eram retirados de dentro do meloal em sacas, às costas, das mulheres, até mais não poderem levar, para a serventia onde passava o tractor, ou levados em linha de pessoas que atiravam pelo ar uns aos outros, sem nunca deixar cair, até ao carregar ou descarregar.

VÁRIAS ESPÉCIES DE MELÃO

A melancia também era semeada e tratada como o melão, apenas em menos quantidade, isto por ser uma linha de mercado mais curto e menos rentável.

Também cultivavam feijão para secar, Julieta comprava uma saca grande de feijoca ‘Santa Catarina’ - era mais cara mas todos gostavam - e um ano comprou também metade de feijão-frade, por ser mais barato, mas que poucos lá em casa gostavam.

Todo este feijão era para comer no Inverno e de todo o jeito se cozinhava, quando não havia trabalho todos tinham de comer, e Julieta tinha oito pessoas para alimentar em casa, ela, o marido, cinco filhas e a avó Joaquina.

Desde que houvessem legumes secos, hortaliça na horta, algum azeite e batatas, ninguém se queixava, havia sempre que comer, mesmo que não tivessem trabalho, e já tudo se arranjava.

O CASACO AZUL
Dalila precisava de um casaco, mas comprar um feito, nem pensar! Seria muito caro e como ela é que fazia todas as costuras lá em casa, e não só, Julieta e a filha resolveram comprar um corte de fazenda, de cor azul forte, para fazer o ‘casaco para Domingo’, como se dizia.

Era apenas um casaco para sair ou para dias de festas, mas no fim da compra feita surgiu um problema: Dalila sabia fazer muitas coisas, muitas costuras, mas ir cortar um casaco de fazenda era uma grande responsabilidade, tanto mais que ela queria um casaco de que se orgulhasse de vestir, até gostava muito da cor mas… não se decidia a cortar o casaco. Tinha medo de estragar a fazenda e o casaco não ficar bonito, era difícil, ela antes queria que fosse a mãe a cortar, mas esta disse que não, que ela é que tinha de o fazer.

Dalila só tinha dezasseis anos e pouca segurança, ainda própria da idade, esperou mais uns dias e nada de cortar o casaco, e então Julieta deu-lhe um ultimato: ou ela cortava e fazia o casaco ou então podia esquecer, ia a mãe cortá-lo mas seria para a Amália.

Viu-se assim encostada à parede e teve de decidir. Foi pedir o casaco à prima Lu para seguir o modelo, tirou as medidas, altura de corpo, altura de manga, e viu que o resto que sobrava da manga tinha de dar para a gola, e verificou os forros de tafetá, entretelas, e tudo o mais que ela até sabia fazer.

Seguiu em tudo o casaco da prima, que era bege e comprido, enquanto o dela era muito mais bonito em cor e seria curto, só tinha mais dificuldades em fazer a gola, porque quanto aos bolsos fazia-os de chapa, era fácil resolver o assunto, a gola, essa, só podia fazer de um jeito, igual também ao da prima.

Fez um molde da gola da prima, uma gola que era redonda, caída na volta do decote. Não gostava muito daquele modelo mas valia mais ficar assim, mesmo que até não fosse dos últimos modelos da moda, agora, só o que interessava, era que ficasse capaz de se ver.

E até ficou bom, o casaco, e sempre o vestiu com muito orgulho, por gostar da cor, e porque era a sua obra máxima, com uns botões metalizados, estava óptimo e muito confortável, e foi este o seu único casaco de fazenda até se casar.

Tal como o casaco, quase tudo na vida de Dalila, era de origem ‘autodidacta’, ela era uma pessoa muito intuitiva, analítica, assim aprendia com facilidade tudo o que via fazer, e se propunha fazer ou criar, e foi assim também que aprendeu a bordar à máquina. Via as primas a bordar, elas sim, tinham aprendido com uma mestra, mas Dalila tinha de trabalhar no campo, não tinha tempo para ir aprender, nem os pais lhe podiam proporcional essa aprendizagem.

Nada disso a inibiu de procurar resolver o problema. Foi a Santarém, comprou um bastidor, linhas, cordão e tesoura, o mais prioritário para poder começar a aprender, e comprou uma peça de adaptação para a máquina de costura, o que lhe resolvia o problema, por ser uma máquina já muito antiga. Não disse nada a ninguém, nem pediu à prima para lhe ensinar, não seria necessário, já sabia como se fazia de tanto ver, era só experimentar e praticar, e se bem o pensou melhor o fez, e conseguiu aprender o mais básico.

A primeira peça que fez, e que merecia já relevo, para o seu enxoval, foi uma toalha de mesa branca, toda bordada a matiz, com três tons de azul apenas, era o mais fácil, e em termos de investimento o que saía mais barato, só comprou três carrinhos de linhas de bordar, e tinha trabalho para imenso tempo.

Claro que a toalha foi apenas o início, atrás foi bordando todo o seu enxoval, o de Amália e até o de outras pessoas, como sempre fez, sem levar dinheiro, sem cobrar, e a troco de nada.

continua no proximo capitulo

quinta-feira, 26 de maio de 2011

QUINTA-FEIRA DE ASCENÇÃO



ERA POR AQUI, ONDE HOJE ESTÁ COLOCADA ESTA PLACA, QUE SE CORRIAM AS CAVALHADAS!
CAPITULO 28º

QUINTA-FEIRA DE ASCENÇÃO

Pouco depois chegava pois a Quinta-feira de Ascensão, nesse dia não havia baile mas havia a matiné no Entroncamento do Noel. Era um dia grande, também, era feriado e as raparigas ali das terras vizinhas, juntavam-se lá para dançar, vinham algumas da Póvoa da Isenta, encontravam-se com as de Atalaia, que já tinham ido até à Quinta da Centieira apanhar a espiga. 

Seguiam em grupo numa alegria imensa com alguns rapazes que já se lhes tinha juntado, até ao cruzamento, e lá se aglomeravam com o grupo maior que vinha do Casal da Charneca.
Normalmente já vinha integrado no seu grupo o Carlos, era o acordeonista lá da terra e participava sempre nestas brincadeiras, o que era interessante, e havia o Noel que também tocava acordeão, e o Guinetas, que era de Vila Nova do Coito.




Quando se juntavam dois deles era bem melhor, a música era mais diversa, ou então muitas vezes passavam a dançar várias vezes a mesma música como a ‘Tira a Lagarta da Couve” - era engraçado, mas já era muito pouco para a juventude da época.
Juntavam-se ainda as raparigas de Almoster mas, entre todas, as do Casal da Charneca marcavam pontos, elas tinham as quintas onde trabalhavam sempre mas. Outras, nem trabalhavam no campo, as famílias eram mais endinheiradas, não precisavam de trabalhar para os outros, ou até labutavam bem pouco, para os pais.


No último ano em que Dalila foi dançar para o Entroncamento - tinha dezasseis anos, andava a trabalhar - comprou um tecido engraçado ao Senhor Madeira, com um fundo verde seco e uns desenhos geométricos, bem bonito, mas não era um tecido rico.
Ela já fazia toda a roupa para ela e para as irmãs, e fez agora um vestido, de que tinha tirado o modelo de uma revista, e até estava bem giro. Mas naquele dia todas vestiam também o melhor que podiam, todas estreavam roupa nova.

Quando se juntaram com as do Casal da Charneca, vinham algumas das tais que os pais lhes davam tudo, havia uma muito loura, loura natural, vinha no grupo, e vestia um vestido bem verde, de bordado inglês, um tecido só para meninas ricas. Dalila, como adorava verde, gostou muito de ver o vestido, que era bem bonito, mas esse encanto até se dissipou, quando a arrogância da sua dona sobressaiu acima dessa beleza. 


QUINTA-FEIRA DE ASCENÇÃO


De fato novo vestida
Quase sempre a estrear
Eu ia procurar a espiga
E cerejas apanhar.
Deste dia, em tal beleza,
Lembranças passadas, eu guardo
Porém sem grande certeza
Pelo seu significado.
Depois foi tempo de encanto
E o manter da tradição
Em bailaricos no campo
Com música de acordeão.
Dizia a avó, com carinho,
Deste dia tão guardado
Nem pássaros iam ao ninho
Em respeito a Cristo amado.

LÍDIA FRADE



Dizia a dita menina de vestido verde de bordado inglês, desdenhosamente, que as raparigas da Atalaia estavam vestidas com as roupas que ela usava ‘de semana’.
Sim, porque nessa época, as roupas que se usavam de semana, não eram as mesmas dos dias de festas, eram feitas de tecidos mais modestos e aí estava a diferença, o estatuto social da tal menina era superior, tal como o seu vestido em relação ao de Dalila.
Mas como a base da educação ou da felicidade não poderiam ser a arrogância, ou a ignorância, Dalila pensou, e achou, que poderia ser mais feliz com o seu vestido de pobre, mais rica, de pensamentos, de ideais, de sonhos, que não cabiam dentro de um rico vestido verde de bordado inglês.
OS SANTOS POPULARES

Logo a seguir chegavam quase de um pulo os Santos Populares, que eram vividos com muita intensidade por toda a juventude da época, e as fogueiras da véspera do Santo António arrancavam com toda uma sequência.
As raparigas combinavam: a fogueira em cada dia era feita em frente da casa de cada uma. Isto mais pelos pais, que davam mais importância ao local que as filhas. Pois, por estas, quanto mais longe, mais à vontade, um pouco, se estava, por vezes, para namorar, ou para os pais não se aperceberem com quem falavam, dançavam, ou saltavam à fogueira.

Durante a tarde Dalila ia com o macho, a carroça do pai e um grupo de raparigas ao pinhal, ao mato, para apanhar alecrim, marcela, rosmaninho e outros arbustos que estalavam ao entrar no lume - era um pouco para substituir as bombinhas que não tinham.
Quando chegava a noite, levavam a carrada de arbustos que tinham apanhado para o local onde se iria fazer a fogueira. Esperavam o mais possível para estarem todas, e para se lhes juntarem os rapazes da terra, e os demais que vinham de várias aldeias vizinhas.

A fogueira, ateada que estava, começava-se depois por se deixar saltar os miúdos mais pequenos, e a seguir, já com uma chama mais alta, saltavam em sequência os grandes ou os pares.
Depois tinham as alcachofras: apanhadas floridas, brancas ou azuis, cortados os espinhos do pé, para que ninguém se picasse, eram queimadas as flores pelas moças que pediam ao Santo António que lhes mostrasse se o seu pretendente gostava muito ou pouco delas, dizendo o seu nome em segredo.

Colocada a alcachofra espetada no jardim ao luar, com as pontas queimadas, no dia seguinte iam espreitar se estava muito, ou pouco florida - assim se via quanto o seu pretendente lhe queria.
Claro que todo aquele ritual era para brincar, algumas até queimavam várias alcachofras por vários rapazes, e algumas mais sabidonas até sabiam que sempre floria mais se ficasse menos queimada.
Depois tinham as rodas, cada rapaz convidava a menina que queria conquistar para entrar na roda, o pior era se alguém se atrasava e já não conseguia quem mais lhe interessava.

Mas tudo se ajeitava e acabavam sempre por ir parar nos braços um do outro, mesmo para despeito de alguma que era passada para trás, e todas cantavam as modas de roda.
Alguns rapazes até aprendiam a cantar uns versos às raparigas, o que era interessante e muito romântico, e até ensinavam outras rodas que elas não conheciam como o ‘Ladrão de Meio’ que era lá da terra deles, e que um cantava em quadra à sua preferida.

Refrão:
Óh ladrão do meio
Tu anda ligeirinho                      
Não queiras ficar
Na roda sozinho.

Quadra Popular:
Jura amor, que eu também juro
Faz uma jura bem-feita
Jura amor, que me hás-de dar          
Na igreja a mão direita.

Alguns destes namoricos resultaram em casamento, com todo o romantismo e longo namoro, outros, não passaram da pretensão, e brincadeira.

AS CAVALHADAS

Depois era nos Santos Populares onde também  se faziam as cavalhadas, e no S. Pedro era sempre em Almoster, o baile na véspera do Santo, depois as cavalhadas, no próprio dia, durante a tarde, o que era sempre muito divertido.

Colocavam duas varolas de eucalipto de cada lado da estrada, uma corda com um engenho lá pendurado no meio, onde era colocado um carrinho de linhas vazio, com uma fita de seda enrolada, e uma argola na ponta. 
Estava tudo lá para as ditas cavalhadas, os rapazes de bicicleta a maioria, de mota alguns, e ainda outros, mais originais, que conseguiam ir mais às origens, vinham de burro, sim! É que as origens das cavalhadas será mesmo com gado cavalar ou asinino.
Depois faziam uma inscrição para ‘X’ de corridas pagando o equivalente, seriam chamados pela sua vez na inscrição, saíam do local de partida, uns metros antes do sítio onde estava a fitinha enrolada, pendurada, com uma argolinha na ponta, e onde cada corredor tinha de passar a uma velocidade de corrida de burro.

Com um bico feito de qualquer coisa que poderia ser até um lápis, teria de acertar, enfiar e levar a fita consigo, para ter direito a um prémio, mostrado antes na partida ao concorrente.
Para os prémios, era hábito irem elementos da comissão de festas pedir de porta em porta, e cada pessoa daria o que pudesse, um frango, um coelho, ovos, ou qualquer quinquilharia que tivesse em casa, tudo servia para encher os cestos de verga grandes que levavam para recolher as prendas.

Todas as pessoas iam ver as cavalhadas e Dalila lá estava também com as irmãs, as amigas, e as mães. Quando alguns rapazes amigos retiravam algumas coisas eram elas que iam guardando. Depois, no final, algumas que se poderiam partir no regresso deles a casa, tal como ovos, ou outras de pouca importância, eles repartiam com elas, o que era sempre agradável.
Mas tudo era imprevisível, os pais nem sempre concordavam com os bailaricos para todos os fins de semanas, as mães até estavam sempre de acordo mas, os pais, eram mais difíceis, mas Dalila pedia, rezava a todos os Santos e Santas, para que o pai as deixasse ir.

Quando iam à missa rezavam e pediam com todo o fervor a Deus, no momento da eucaristia - que era o momento mais solene e que ela achava, poderia ser mais escutada - para que o pai as permitissem ir ao baile, o que não deixava de ser uma angustia, até o pai chegar para jantar e ela, com toda a pouca sabedoria, tentava da melhor maneira convencer o pai a deixá-las ir.
Mas era uma tortura, o pai arranjava todos os pretextos para lhes exigir mais, e para o dia seguinte enumerava já todos os trabalhos possíveis e imaginários para fazer na horta. Depois de elas prometerem fazer tudo o que ele dizia, depois de todo um massacre, lá dava autorização, com a hora marcada para estarem em casa, mas era apenas uma altura de sofrimento, compensada pela alegria de irem dançar.
  
Depois, vinham as festas de arraial, festas de Verão, e era uma delícia, em cada fim-de-semana passou a haver uma festa em cada aldeia, claro, quando o pai deixava, lá estavam elas, e então quando eram bons grupos de baile ninguém gostava de faltar.
Era o que acontecia naquele Verão de 1965 em Almoster! Gente com dinheiro, de peso e iniciativa, juntaram-se e levaram lá os ‘6 DE PORTUGAL’, um grande grupo de baile da época e que ia lá fazer um baile por um bom cachet.

A sala da colectividade, à época, era muito pequena, e o baile foi feito no armazém do lagar de azeite! Grande baile, grande conjunto, bela música, muitas raparigas, muitos rapazes, mas poucos teriam já dançado ao som daquele grupo.
Foi uma noite de alegria, e Dalila foi dançar com um rapaz muito engraçado e simpático, que mais tarde namorou e casou com sua prima, e foi lá que a prima o conheceu, ele era da terra vizinha da Louriceira, e dançaram tão efusivamente a sua ‘moda da vassoura’ que conseguiram vencer essa dança, ganhando o tal prémio de um sumo para cada um, no final.

RECORDANDO ALMOSTER
És refúgio, para vida citadina
O oásis de quem luta dia a dia
Pureza calma, de aldeia pequenina
De quem recebe, por amor, com alegria.

Filhos da terra, de quem se espera valor
Para esta mãe, velhinha, e tão esquecida
De coração alegre, por tanto amor
Que nos quer dar, do seio da própria vida.

Berço de Nobres, embalados nos seus braços,
Que os uniu a ela, longínquos laços
Que nos orgulha, do seu passado de glória.

Recolheu, no seu regaço protector
Quem procurou refúgio, paz, ou por amor
Que faz viver, ou recordar, a nossa história.


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sexta-feira, 29 de abril de 2011

OS BAILES!!!


CAPITULO 27º

OS BAILES
Chegado assim o Ano Novo, tudo era igual nas comemorações, mais fritos ou algumas broas, ou arroz doce - especialidade mais confeccionada, nas festas de famílias mais pobres - mas havia mais do que a juventude gostava, os bailaricos da passagem do ano.
Um grupo de rapazes juntava-se e faziam-se sócios para contratarem um acordeonista, ou, algumas vezes, um duo, o que implicava já uma responsabilidade acrescida, mais dinheiro e, por isso mesmo, uma maneira de exploração do recinto mais pensada.
Isso levava por vezes as raparigas, também, a contribuir da forma como podiam. Juntavam-se algumas em grupos e faziam bolos para oferecer. Eles faziam leilão dos bolos para ajudar o resultado final, todos se divertiam, e todos contribuíam para a sua própria diversão. Os bailaricos eram quase os únicos eventos numa sociedade de aldeia, e eram por isso muito importantes, e ali nos bailes se conheciam rapazes que vinham das terras próximas.
A maioria deslocava-se sempre de bicicleta, o seu único meio de transporte, alguns já de motas, os que já estariam numa classe média, e ainda outros, bem poucos, já se deslocavam de carro, mas estes eram só os filhos de grandes famílias, considerados classe alta, que alguns até já andavam a estudar noutros graus.
A sala do baile era muito versátil, não havia sala fixa, servia uma adega, um celeiro, uma sala grande de casa de família, ou, até... imaginem... umas instalações da Escola Pratica de Cavalaria, em Mata 4, na Atalaia, Almoster. Mas é verdade! Nunca decerto a hierarquia máxima da Escola Prática teria disso conhecimento, mas a verdade é que Dalila, as suas amigas e os rapazes, dançaram ali num bailarico.
Alguém emprestou a sala a dois sócios que a pediram para o baile, o Augusto e o Carlos, eles já eram mais para a idade dos pais que das filhas, mas a condição para eles fazerem os bailes era essa, as meninas, cada uma por sua vez, tinham de dançar uma música com eles, senão, não haveria baile.
Algumas, mais sabidonas, enrolavam e nunca chegavam a dançar, mas as mais compreensivas pensavam, ‘uma música passava depressa’, depois tinham o resto da noite para dançarem com outros pares.
As mães estavam sempre presentes nos bailes, com as filhas, a primeira fila de cadeiras era toda dedicada às mães. Depois, as filas restantes eram para as filhas, ali bem na frente das mães, bem com o olho em cima. As raparigas e mães não pagavam entrada, só os rapazes pagavam, e os homens mais velhos, normalmente, davam o que podiam para ajudar.
Depois havia umas danças muito próprias para rentabilização do recinto, como por exemplo a ‘moda à Inglesa’, onde eram as raparigas que iam convidar os homens, e por vezes umas corriam a convidar os que pretendiam para uma aproximação de namoro. Outras ainda iam convidar alguém mais importante, até homens casados, para que se sentissem lisonjeados e pudessem fazer uma melhor contribuição para o baile.
Havia também a ‘moda da rosa’ que consistia no leilão de uma rosa na mão da menina ‘X’ – ‘quanto vale?’ Muitas vezes era picada por fora, e o seu par, se queria continuar a dançar com a ‘X’ tinha de cobrir o lance, ou poderia ficar mal visto diante da dama.
E ainda existia a ‘moda da vassoura’, essa era de paródia, começava uma vassoura a passar de par em par, no desenvolver da música, e de repente o músico parava, o par que estivesse com a vassoura saía, e assim seria até ao final dos pares. O par final ganhava um sumo para cada um.
*
Depois mais adiante no ano, chegavam os bailes do Carnaval, que era de dançar até se cair de cansaço. Começavam também por esta época os bailes ao Sábado - dava mais jeito para quem tinha de trabalhar ao Domingo.
O Carnaval ia de Sábado até Quarta-feira de tarde, com sessões em que se saía a cantar ainda, numa rusga do solidó, acompanhada sempre rua abaixo e rua acima com o acordeonista e os rapazes que se queriam juntar, até à noite de Quarta-feira de cinzas, quando se enterrava o Carnaval.
Era sempre um frenesim, antes, com o cuidado de arranjar um traje para cada dia, que depois iam trocando entre amigas para andarem sempre diferentes. Depois era sempre pelo Carnaval que as raparigas da província, nos anos sessenta, se atreviam a vestir calças.
Se não tinham calças femininas pediam emprestadas as dos homens - desde que estivessem bem tudo servia – e assim também se atreviam a andar de bicicleta, que pediam emprestada, isto na parte da manhã, nas cegadas, em que percorriam a aldeia.
Na passagem dessas cegadas era o aproveitar para pregar partidas - que se acautelassem! - as portas eram bem fechadas e nada de descuidos, porque senão ficava a panela sem galinha, o penico serviria de jarra, e tudo o que a imaginação ditasse na hora, acontecia.

CARNAVAL
Carnaval, são só três dias
Hoje, amanhã e depois
Pouco tempo a divertir
E muito em aflições.
Mostrar como era, eu queria
Carnaval, óh mocidade
Onde eu dizia, a brincar
Coisas que eram verdade.
Começava no S. Vicente
Cantar de alegria infinda
Havia macholhos, cegadas
Até Quarta-feira de cinzas.
Partidas que se faziam
Só tinham graça, eu acho
Lá se roubava a galinha
Metendo uma pedra no tacho.
E se uma jarra florida
Enfeitava, a mesa de jantar
Quando um penico voando
Era posto no seu lugar.
Brincadeiras sem ter fim
Pois nada parecia mal
Tudo tinha o seu desconto
Em tempo de Carnaval.

Era assim: os mascarados irreconhecíveis, os macholhos, com as suas críticas sociais, e os rapazes, sempre na linha da frente, um pé sempre pronto para avançar de corrida, logo que o tocador abrisse o fole do acordeão, que muitas vezes se abria em falsa partida.
Isto tudo enquanto as raparigas não começaram a aceitar par adiantado. Assim, bastava um sinal e, se conviesse, o par já estava aceite, ou não, poderia também levar uma tampa à distância. Mas muitas vezes já andavam com pares combinados, para mais de  cinco músicas.

O BAILE DA PINHA
Ainda existiam os bailes da pinha, eram uma euforia, ali quase todas as raparigas é que ofereciam as fitas de seda para prender e preencher a pinha, e cada fita que as moças ofereciam procuravam personalizá-la.
Escolhiam assim a fita mais bonita e mais larga, chegando mesmo a mandar bordar à máquina as fitas com um desenho escolhido a gosto, e o nome da respectiva menina.
Depois, os sócios do baile amarravam todas as fitas na pinha, escolhendo eles a menina que queriam fazer Rainha do Baile, e prendiam de tal jeito que, por mais que se puxasse na hora de abrir a pinha, a da Rainha não sairia, saíam todas as outras, mas aquela seria assim nomeada Rainha, tal como o rapaz que comprasse a fita, na hora do leilão, seria o Rei.
Teriam direito a um lindo bolo e a uma garrafa de espumante, para acompanhar e dividir entre os pares que estivessem a participar naquela dança, e esse bolo, normalmente, era oferecido pela Rainha do ano anterior.
No ano em que Dalila fez quinze anos ofereceu também a sua fita para o baile da pinha, como todas as outras moças, mas só a mãe sabia dessa situação. Quando chegou a hora de ir para o baile o pai ainda não tinha chegado a casa.
Como era costume, as primas chamaram-na para que fossem todas juntas, mas ela, a mãe aliás, estava aflita, com receio da reacção do pai, se as deixasse ir sem lhe pedirem, poderia se mau. Mas como ele não chegava e o baile era perto de casa, deixou-as ir com as primas, ficando ela em casa.
Quando ele chegou, tomou conhecimento do assunto e não gostou, ou fez mesmo de propósito para as fazer rabear, e fez a mulher ir chamar as filhas para que voltassem para casa. Elas pediram e rogaram, mas nada, a prima até foi lá falar com ele, e nada. Depois ela disse-lhe ainda ‘agora a rapariga tem lá a fita pendurada e fazes uma coisa destas’. Ai!... Aí foi a desgraça, ele não sabia, claro, e então  diz, ‘Ah!… ainda mais, uma fita!... e ninguém me diz nada! Pois agora é que ela não vai!’
Moeu, remoeu… mas a prima não desistiu e atirou-lhe: ‘olha lá, agora é que elas são novas, têm de brincar, divertirem-se, elas fartam-se de trabalhar, e estão lá todas menos elas, eu vou levá-las, deixas por mim, e voltam para casa comigo, venho cá pô-las’.
 Depois ele, lá acabou por dizer, ‘bem então hoje mandas tu, ficam à tua responsabilidade, hoje mandas tu’.  Dalila, toda ela já farta de chorar, foi lavar a cara, mas foi de olhos inchados para o baile, bom, o que importava era ir mesmo, e o resto da noite foi compensada a dançar.
Quando eram três horas apareceu o pai lá no baile, chamou a prima e diz-lhe: ‘olha lá, ainda não achas horas de ir pôr esse pessoal a casa?’
Ela respondeu que iam todas já a seguir e assim foi, mas foi uma daquelas noites, em que elas tiveram de agradecer à prima a intervenção dela, tinha tido mais força do que os pedidos e as rezas aos Santos.
*
Falta referir que já aí vinha dentro de semanas a véspera da Páscoa, que também era dia para baile, e se por algum motivo não houvesse baile na Atalaia, as raparigas iriam decerto - as que os pais deixassem - a alguma terra vizinha, mas sempre acompanhadas pelas mães.

FIM DO 27º CAPITULO




26º CAPITULO


A NOITE DE NATAL
Chegou finalmente a véspera do Natal. Esse era o dia dos preparativos para a grande noite e, por conseguinte, para o grande dia, limpezas, e a compra de uns quilos de farinha para fazer os coscorões. O azeite para os fritar já havia, teria sido apanhada a azeitona e trocada no lagar pelo azeite, não só para fazer os fritos das festas natalícias mas, também, para gastar no dia-a-dia na confecção da alimentação.
A primeira coisa a fazer para a época natalícia, eram as broas, faziam-nas sempre uma semana antes, cada mãe de família tinha as suas receitas, muitas vezes ciosas delas, e não gostavam de as divulgar, gostavam que fossem as únicas, ter a sua especialidade.
Comprava-se mais um quilo de açúcar e canela para polvilhar os fritos, e também para mais algum mimo, matava-se um bico de criação, que seria um galo ou galinha grande, da capoeira, criada apenas com os restos de alimentos de casa ou legumes da horta.
A véspera de Natal era muito importante e tradicional dentro das possibilidades de cada família e, a de Dalila, sendo pobre, seguia a tradição, comendo as couves portuguesas ou de sete semanas, como lhe chamavam na aldeia, criadas e cortadas na horta, com batatas e o respectivo bacalhau, que nessa época ainda fazia parte da alimentação dos pobres.
A ceia era cozida e comida logo à hora habitual como nos outros dias, a seguir ia tratar-se de amassar os fritos, eram amassados no mínimo três quilos de farinha dentro de um alguidar de barro vidrado, despejada a farinha no alguidar, e procedia-se à colocação dos ingredientes de tempero para que ficassem gostosos.
Dalila já tinha aprendido com a mãe a temperá-los, começava por pôr meia mão de sal, que na aldeia se dizia ‘meia macheia de sal’, o mesmo que se colocava para meio alqueire de pão, alguns ovos de acordo com os que havia para gastar, sumo de laranja, um pouco de fermento em pó, um pouco de vinho branco, e um pouco de aguardente, raspa de casca e sumo de laranja.
Envolviam-se todos os ingredientes, começando por amassar, juntando pouco a pouco a água fervida com limão, continuando a amassar bastante, até que a massa se torne macia e feita numa grande bola. Trabalhava-se a massa até que ao cortar com uma faca ela ficasse bem arrendada no corte, deixando descansar de seguida um pouco.
Entretanto preparava-se a fogueira na chaminé com lenha previamente organizada, cortada e rachada em cavacas, para arder em lume certo.
O azeite ficava em cima da fornalha ou trempe, até à fervura, dentro de um tacho ou caçarola largos e suficientemente fundos para fritar e voltar os coscorões, que já estavam estendidos, recortilhados e, ao serem colocados, poderem ir ao fundo e subir em fritura, empolados, e fáceis de se voltarem.
Lavado o mesmo alguidar onde tinham amassado os coscorões iam-se colocando os mesmos depois de fritos, em camadas, e eram polvilhados com açúcar e canela.
Todas estas tarefas eram divididas entre a família, cada uma fazia a sua parte para que tudo corresse bem, até ao final da noite da consoada. Acabado o trabalho era hora de provar e sentir o prazer, de comer os coscorões acompanhados por uma boa caneca de café de mistura ou um cacau quentinho.
Ao lado da fogueira e da trempe já alguém teria posto uma grande cafeteira de barro, ou esmalte, a cafeteira do café, para ir aquecendo a água até à fervura, juntavam-se umas colheres de café de mistura na hora certa, mexia-se, e tinha-se uma caneca com água fria à mão, que se deitava assim que o café subia e se preparava para entornar com a fervura. Afastava-se depois do lume para assentar, e era um regalo, este café da cafeteira na casa de Julieta para acompanhar os primeiros coscorões na noite de Natal.
Tudo acabava por ali cerca da meia-noite. Depois de se arrumar a cozinha, as crianças já tinham ido para a cama, deixando o sapatinho na chaminé, e um ratinho de chocolate saltava lá para dentro.
Como Dalila já ‘trabalhava para o ratinho’, e já não punha o sapatinho, era ela que se encarregava de colocar as prendas nos sapatinhos das manas pequenas, já podia até acrescentar a sua oferta, já tinha o seu dinheirito, mesmo que pouco.

O DIA DE NATAL
O resto da noite era bem dormida. De manhã ao levantar, voltavam ao mesmo cenário: atear o lume novamente, espreitava-se como iria estar o tempo do dia 25 de Dezembro, mais café e coscorões - era dia de Natal – e havia a missa às 11h30, no Mosteiro de Santa Maria de Almoster. Tinham de ir a pé, ficava ainda a três quilómetros, e o pai bem lhes dizia até: ‘digam qual é o santo da vossa da vossa devoção que eu compro cá para casa’ - isto só para elas não irem à missa a Almoster. 
A noite tinha sido muito gelada, estava tudo branquinho de tanta geada, a avó Joaquina dizia que ‘não se via um palmo na frente do nariz’ com tanto nevoeiro, um verdadeiro cenário natalício.
Mas o pior é que não havia casacos… estavam congelados. Reparem e pensem bem… casacos congelados para vestir e ir à missa no dia de Natal… Mas lá estavam eles, pendurados no arame, mesmo debaixo do telheiro, não havia nada a fazer.
E a alegria era a mesma, a festa faziam as irmãs mais pequenas, divertidas, não tinham missa era verdade, mas tinham os casacos congelados, inteiriçados, esticados nos arames e, sempre que passavam por eles, naquele dia, davam-lhes uma pancada, para sentir como estavam duros, tanto que pareciam um pau, os seus casaquinhos do dia de Natal.
Chegada a hora do almoço, este poderia ser ‘roupa velha’, uma mistura dos restos, legumes cozidos e bacalhau às lascas, da véspera, ou até grão cozido com bacalhau, não havia propriamente uma tradição no almoço de uma família pobre. Já para o jantar teriam sempre uma galinha para matar e fazer uma canja de galinha caseira, que era muito bom, a galinha corada depois e, como sobremesa, poderia ser um arroz doce e os fritos.
No largo da aldeia, ou mais junto das tabernas, havia sempre um cepo do Natal a arder, antes já os homens haviam deitado o olho a algum bom madeiro que pudessem ir buscar para a acender na noite de Natal, a maioria das vezes era até roubado, mas isso também dava pica ao pessoal, pelo menos aos mais jovens.
Iam mais tarde com um macho e uma carroça - que era o transporte mais fácil de arranjar – ou depois com algum tractor, mais um grupo de homens para conseguir carregá-lo, e descarregavam-no no sítio escolhido e era então ateado o fogo, para o aquecimento dos homens que estavam por ali.
Esse cepo era sempre suficientemente grande para ficar a arder desde a noite de Natal até à noite de Ano Novo - passada essa quadra já se deixava apagar, o importante era o calor da época natalícia.
O Natal era mesmo a festa da família, ninguém fazia mais nada de diversão. Se havia uma pessoa vizinha ou amiga que não fizesse fritos de Natal, era por algum condicionalismo, que até poderia ser a morte de algum familiar. Já não faziam então nada para festejar o Natal. Mas mesmo a essa pessoa ou família não lhe faltaria nada, todas as vizinhas se lembrariam de lhe ir levar um pratinho do que tivessem feito na sua casa, sendo um dos bons costumes de solidariedade, numa pequena aldeia.

CONTINUA NO PROXIMO CAPITULO