quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

NO LARGO DO MILAGRE

DO LIVRO A FAZENDA ONDE VEIO A LUZ AO MUNDO
22º capitulo

NO LARGO DO MILAGRE



Irem viver para Santarém, era ideia de Deodato, o pai de Dalila. Primeiro, tinha arrendado ali, na rua Miguel Bombarda, uma pequena loja onde montou um lugar de frutas e hortaliças, e tudo isso foi imaginado e feito na pior altura.


Deodato já tinha vendido a fazenda do avô Zé, lá é que poderiam criar muita coisa para vender ali no lugar, mas, agora, que não tinham mais fazenda? Como era? Quando tinham de comprar para voltar a vender? Mas… era ele que mandava, à família só cabia obedecer.


Quando até já tinha vendido a outra casa que tinha comprado no Cabeço de Almodelim, tinha acabado com a taberna do Chafariz, que era alugada mas vendia lá o vinho que produziam, vendeu tudo agora e levou a família para Santarém.


Ali estavam elas, tinham conseguido arrendar uma casa para viver, mesmo defronte da Igreja do SS. Milagre, eram umas águas-furtadas mas era uma belíssima casa, com quartos para todos, sala, e uma grande cozinha. Tinha ainda uma porta que abria para uma espécie de varanda, sem a ter, que apenas tinha um muro alto na frente, que servia de parapeito, para se debruçarem e verem o movimento da rua.


Dalila gostava de estar lá, quando era Verão, mesmo depois do jantar, muitas pessoas andavam a passear na rua, iam para o centro da cidade ver as montras, e dali observava tudo sem a verem a ela.


Julieta na época já estava grávida da que viria a ser a sua quinta filha e isto causava admiração, já não eram muitos os casais que teriam um tão grande número de filhos, e principalmente porque os recursos eram muito poucos, estavam numa época péssima da sua vida o que tornava tudo pior, com um pai, assim, de cinco filhos, um pouco irresponsável pela sua sobrevivência.


Julieta bem tinha feito de tudo para acabar com aquela gravidez, mas não muito para a evitar, dado a evidência do facto e, se não tivera dinheiro para comprar um ‘anti’, muito menos teria para um ‘após’, e daí uma gravidez inesperada, ou até um pouco indesejada.


Depois de tomar tudo e mais alguma coisa que teria ao seu alcance, desde mesinhas caseiras, e sem resultado, uma vizinha deu-lhe o nome de uns comprimidos que seriam feitos na farmácia. Embrulharam num papel, o que parecia ser um comprimido, mas que seriam apenas algumas substâncias envolvidas num tipo de película de que se faziam as hóstias, e entregaram assim o papel a Dalila, e mandaram-na ir à farmácia comprar o medicamento para a gripe.


Dalila entregou o papel ao farmacêutico, que lhe perguntou ‘para que queres este medicamento menina?’, ao que ela respondeu ‘que era para a mãe, que estava com gripe’, dizendo o homem que não tinha, mas que fosse lá a mãe falar com ele.


Mas ela não foi, e dinheiro para ir a uma parteira não tinha, a barriga foi crescendo, e a mesma amiga ofereceu-se para madrinha.


Dalila foi colocada a vender na loja e, para a idade dela, até dava bem conta do recado. Um dia foi lá uma cliente procurar limões, chega e pergunta: ‘óh menina, tem limões?’ E Dalila responde, ‘há mas são verdes!’


Dalila achou que devia informar a cliente antes de ela ver os limões, mas a cliente saiu porta fora, nem olhou para os limões, Dalila ficou a olhar a cliente, sem entender se teria ficado ofendida com a resposta ou, por outro lado, não lhe interessava comprar limões verdes.


Mas ela tinha apenas doze anos, podia não conseguir fazer tudo bem, já foi lá em Santarém que completaria os treze, e esse dia de aniversário foi de facto diferente, esse ano nunca o esqueceu, o dia dos seus anos, não pelo dia da festa, que não lhe fizeram festa, mas por um acontecimento com o pai.


DIA DE ANIVERSÁRIO


Deodato tinha uma moto grande, já não tinha carroça, já não tinha mota pequena, mas tinha uma mota enorme para a qual era preciso uma carta de condução para a poder conduzir, e isso era coisa que ele não tinha, no entanto andava a passear-se nela para todo o lado e por vezes levava Julieta também.


Como seria normal, a polícia desde que soube o que se passava andava sempre a ver se o conseguia apanhar e multar ou, até, levá-lo preso!... Um dia isso foi inevitável, levaram-no para o Governo Civil, e ficou preso, precisamente no dia dos anos de Dalila.


Foi lá ao lugar de frutas um polícia à paisana, falar com Julieta. Depois do agente se ir embora Julieta disse para Dalila que o dia do seu aniversário, dia treze de Janeiro, dia em que fazia treze anos, portanto, ‘casava os anos’, era um dia na crença do povo em que se poderia ter uma grande alegria ou uma grande tristeza, e ali estava a desgraça, para tristeza, o pai havia sido detido.


Julieta foi para o Governo Civil falar com o marido, foi saber o que poderia fazer, para ele sair dali, mas a solução era pagar as multas, e era preciso dinheiro que eles não tinham.


Deodato disse a Julieta para ir falar com alguém amigo, dos conhecimentos dele, para emprestar o dinheiro, Dalila não sabe a quem. Mas até poderia ser a tal amante de Deodato que morava no Galo, perto de Santarém.


Logo, se ele mandasse, Julieta iria mesmo, ela faria tudo por ele e para o tirar dali, até ir procurar aquela mulher que lhe ajudava a estragar a vida. E de facto, no dia seguinte, conseguiram pagar, e fizeram com que ele saísse da cadeia.


Deodato, como já era costume, voltou a ir trabalhar para longe, normalmente para perto de Lisboa, nas obras, mas a família continuava a viver em Santarém, e Julieta, com uma barriga enorme, quase no final de gravidez, já pouco podia trabalhar.


Continua no proximo capitulo

4 comentários:

Luís Coelho disse...

Agradeço a visita ao «lidacoelho»
Ninguem será obrigado a comentar.
Quando fazemos um comentário é um gesto de simpatia com o autor e acrescentamos alguma coisa mais à história.

Tudo o que conta aqui foram de tempos muito difíceis que muitas famílias viveram e outras começam a viver agora. Isto parece que de quando em vez voltamos ao tempo «de mal a pior...»

Existem muitas Julietas nestes tempos e nesta sociedade.
Nem todas são conhecidas..........

flor de jasmim disse...

Lidia
É realmente uma estória de um casal que nos transmite e nos deixa a pensar nas dificuldades e inresponsabilidades que existiam e que ainda hoje existem, eu vivo muito de perto com uma situação não diria igual,mas!!! situações que provavelmente irão existir muito mais por incrivel que pareça, mas pelo o andar da carruagem nada me dá esperança para melhorar.E como diz o nosso amigo Luis Coelho existem muitas Julietas, mas também Deodatos, apenas não se dão aconhecer a não ser quando já não existe alternativa.
Beijinho Lidia

Maria disse...

Amiga hoje vim conhecer o seu cantinho e adorei. É um espaço lindo. Irei acompanhar com muito prazer.
Bom Domingo
Beijinhos
Maria

Lídia disse...

UM grande obrigado meus amigos!!!

Luis, Flor e Maria!!!

Pela vossa visita,
Pelas vossas palavras, que são sempre muito importantes!!!
Com esta interligação não nos sentimos isolados por aqui!!!

1 beijo para todos Lídia