de LÍDIA FRADE - TRÊS LIVROS PUBLICADOS, PARTICIPAÇÃO EM CINCO ANTOLOGIAS DE POESIA E EM VÁRIAS OUTRAS EDIÇÕES * NASCEU ESTE ESPAÇO EM 11-02-2008 *
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
sábado, 21 de agosto de 2010
sábado, 14 de agosto de 2010
CORAGEM DE SER
CORAGEM DE SER
Senti que lancei
O meu corpo às feras,
E que a água fétida dos charcos
Veio salpicar o meu espírito,
Sentindo em mim mesma
O cheiro nauseabundo,
Da podridão escondida
Que foi sendo revelada.
Senti que fui alvo
De armas de tempos passados
De flechas, e guilhotinas,
Ao sentir-me asfixiar
Debaixo de um alçapão.
Senti-me assim personagem,
Daqueles filmes violentos,
Que julgava eu! Eram apenas
Figuras da imaginação!
Mas nesta longa-metragem
Vou bater-me
Até á exaustão!
Não me importo
De ser injustamente queimada,
Como o foi, Joana D´Arc…
O que me interessa da vida
É tão-somente a verdade:
Lutar pelos meus ideais!
E recuso, e não quero,
Viver o tempo que resta
Em lutas medievais.
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
A AVÓ E AS SUAS CRENÇAS
12º CAPITULO
A AVÓ E AS SUAS CRENÇAS
Nesse tempo não havia inseminação artificial, toda a procriação era feita ao natural, havia uns vizinhos que tinham uma vaca e, para ela engravidar, o dono ia com ela mais de dez quilómetros a pé, isto para cada lado.
Era Maio, época de rebentaram as trovoadas fortíssimas, com trovões de fazer estremecer o chão, raios que iluminavam tudo por entre o negrume das trovoadas e as chuvas fortíssimas que caíam.
Era de meter medo, e foi por isso mesmo que a dona de uma vaca, já muito aflita, foi ter com a avó Joaquina, pedir-lhe que rezasse e acendesse uma lamparina a Santa Bárbara para que o filho chegasse a casa são e salvo com a vaquinha.
A avó Joaquina com toda a sua fé o fez, e foi com este cenário que ele e a vaca voltaram para casa quando ia chegando a noite, e a força maior da trovoada já tinha passado.
De vez em quando passava por ali um homem numa bicicleta, trazia da parte de traz uma grande canastra, fechada, para meter a mercadoria que ia comerciando pelo caminho. Parava na estrada e gritava, lá para baixo o seu pregão: ‘…ooooovvvvvzzzzziiiiiiiiiiigalinhas!’.
A mãe ou a avó gritavam cá de baixo, se tinham ou não alguma coisa para vender, os ovos era sempre uma dúzia com treze para compensar algum que se partisse, e as galinhas eram avaliadas a olho.
O homem pegava na galinha, pelas asas, fazia com o braço como se fosse uma balança, abaixo e acima, e dizia para a Julieta ‘por esta dou-lhe tanto’, e o tal tanto nunca era o mesmo para todas, dava um valor conforme lhe parecia o peso.
Era o mesmo com o valor dos coelhos, eram também uma criação abundante a nível familiar, as coelhas eram escolhidas entre as melhores descendências para fazerem boa criação.
Havia sempre um bom coelho reprodutor guardado numa coelheira à parte, só via alguma coelha quando Julieta ou a avó Joaquina entendiam ter chegado o tempo para elas emprenharem.
Quando elas ficavam prenhas, a avó Joaquina conseguia verificar mesmo se estavam apalpando a barriga da coelha, para sentir os grânulos dos coelhinhos em formação. Essas eram logo separadas, as coelheiras limpas, as lousas preenchidas com palhinha limpinha, para fazerem os ninhos.
Nesse trabalho as coelhitas ajeitavam muito bem a palha, levavam as palhas na boca cheia, tipo molhinho, arrancavam os próprios pelos com a boca, e faziam um ninho fofinho para aí nascerem os seus filhotes.
Era um trabalho que Dalila não perdia, o da mãe coelha, lindo de ver: ela ficava parada ao pé da coelheira a observar esta azáfama da coelha, mas a avó não deixava que lhe mexesse, nem que se aproximasse, porque a coelha podia enjeitar, e não cuidar bem dos coelhinhos, quando eles nascessem.
O AVÔ ZÉ
Agora um momento para se falar do avô Zé Franquinho, o seu nome de família mesmo era José da Silva Frade, nascido no Grainho, de uma grande família Frades e, por estranho que pareça, Dalila, a sua neta mais velha, era a única que tinha o nome dele completo, Silva Frade, sendo o Frade o que sempre gosta de utilizar em assinatura.
Todas as pessoas lhes chamavam desde pequeno Zé Franquinho, pela sua maneira de ser, uma pessoa que dava tudo a todo o mundo, o que era dele era também de quem mais precisasse, daí o ser amigo, o ser franco, na sua maneira de se entregar aos outros, e a raiz da sua alcunha, Zé Franquinho.
Partindo da visualização de imagens da infância de Dalila do seu avô Zé, desponta sempre a dele impecavelmente vestido, calça e casaco, chapéu na cabeça e, fizesse chuva ou sol, um chapéu-de-chuva pendurado no braço, uma pastinha na mão, a subir a serventia rumo à estrada.
Começava ali os muitos quilómetros que percorria durante um dia da sua vida, e isto porque nunca ninguém o via utilizar o transporte público, e todos os dias saía para o seu ganha-pão, a venda de lotaria. Dalila sempre conheceu bem o avô Zé, apenas, o avô vendedor de lotaria.
O avô vinha de uma família de classe média, ao longo da vida e com alguns azares foi perdendo alguns bens, mas a aparência e maneira de estar na vida essa permaneceu.
No entanto parece ter sido uma pessoa incompreendida, desajustada, um revoltado com a vida que procurava viver à sua maneira, num meio que não seria o seu, por natureza, mas com quem também não procurava criar muitos laços.
Além de outros problemas apanhou uma doença pulmonar, ainda novo, enfermidade muito difícil de tratar na época, nesses anos trinta, depois advém daí a sua fragilidade para certos trabalhos, a que se junta também um problema de pigmentação na pele, com manchas brancas, e razão para andar sempre de chapéu-de-chuva-ou-sol, porque andava a pé, num Ribatejo ardente, e para se proteger desse sol inclemente.
Não queria tornar-se pesado no agregado familiar, onde não trabalhava - e eram sete pessoas a comer - e o avô Zé pouco ou nada comia em casa, saía logo de manhã e petiscava por onde andava, um dia por cada lado, e todos os dias, até no fim-de-semana.
Tinha os dias certos e os clientes certos em cada localidade, pelas terras vizinhas, a sul, no sentido de Santarém, a sua cidade, onde já tinha sido comerciante, e onde possuíra essa casa, onde morara, e que havia perdido.
No sentido norte, não gostava de ir - dizia que ‘do lado de Almoster, nem homem nem mulher, nem nada que de lá vier’ - primeiro porque não gostava do genro, que era do lado norte, e não gostava daquela Freguesia onde quem mandava era um conde que era o Regedor.
E na época o cemitério, aí em Almoster também, era uma autêntica charneca, onde havia poucas campas arranjadas, só quem mais tinha é que podia ter um jazigo, e as campas eram poucas até, só terra, umas placas poucas, feias, umas chapas de identificação pintadas de preto, e onde havia mato por todo o lado, por não terem obrigatoriedade de fazer mais por um local onde os restos mortais mereciam descansar com mais dignidade.
Por isso tudo, e mais algumas ideias que não proferiu, sempre pediu em casa que quando morresse o enterrassem em Santarém, não queria ir para Almoster nem morto. A avó e Julieta fizeram-lhe depois a última vontade, o funeral foi para Santarém.
E como estamos a falar da morte, passo a contar um episódio deveras peculiar, passado com este avô. Certa vez o avô Zé adoeceu. Como o seu estado já era visivelmente grave e não sabiam como resolver a questão em casa, a mãe foi chamar o médico dele, o Dr. Costa, era um médico da família, já muito velhote.
O médico chegou num carro muito antigo, com motorista, desceu já todo coxo, e teve que ser ajudado no resto do caminho, onde o carro não podia ir.
Entrou em casa, levaram-no ao quarto para ver o doente, e o senhor Doutor só disse ‘então que partida é que este Zé Frade nos está a pregar agora?’. Julieta e Joaquina ficaram á espera que ele lhes desse a resposta. Quando saiu do quarto disse-lhes: ‘pois é raparigas, desta vez não há mais nada a fazer, podem chamar o cangalheiro.’
Para Julieta não ir a Santarém - sempre eram dez quilómetros - ele mesmo se encarregou de fazer a participação à funerária, deixando já o óbito assinado.
A partir daquele momento elas todas aflitas começaram a chorar, e até a gritar na rua para as vizinhas ouvirem, o pranto de morte, e Julieta retirou a roupa que tinham sempre preparada numa gaveta, era a roupa melhor, para a mortalha.
Julieta vestiu-o impecável, como ele gostava, mudou a roupa da cama alta de ferro onde ele dormia, compôs ainda com uma colcha nova, também guardada para o efeito, deitou-o esticadinho por cima da colcha, os braços cruzados no peito, tapou com um lençol branco bordado e com renda grande, do seu enxoval, foi ainda colocado, a tapar a cara, um lenço de assoar, também ele todo branco, que fazia parte da roupa apropriada para a mortalha.
Com tudo pronto, era as posições do costume ocupadas para o velório, a avó sentada perto, as vizinhas tinham já tomado conhecimento e voltariam mais tarde, e o cangalheiro também logo chegaria.
E passaram duas ou três horas, chegou o caixão, os homens entraram, tudo certo, havia que passar o corpo para o caixão, tudo no quarto preparado, os homens agarram o corpo, mas largam de novo, analisaram o avô, desconfiados.
Pediram um espelho a Julieta, que ela prontamente foi buscar, correndo a sua casa, e chegaram o espelho junto da boca do avô Zé, esperaram algum tempo, retiraram e analisaram o espelho, não havia dúvida, estava com vida, a sua respiração estava no espelho.
A avó Joaquina deu-lhe um fanico, e tombou no chão toda vestida de viúva, Julieta ficou perplexa sem saber o que fazer, mas o sangue frio dos cangalheiros ajudou a remeter tudo na ordem.
A avó foi reanimada, a mãe foi retirar o fato e vestir o avô para continuar aconchegado na cama, os homens foram de novo para Santarém participar o que se passava, ao médico, que voltou de seguida. O médico veio, e pediu desculpa pelo engano, deu-lhe logo uma injecção, passou receituário que a mãe, aproveitando a boleia do carro do médico, se apressou a ir aviar à farmácia, a Santarém.
Mesmo sendo apenas um erro médico, a avó chorava e dizia que o avô tinha feito de propósito para a experimentar, que a tinha feito passar uma vergonha, chorava, e reclamava, que ele tinha gozado com ela toda a vida, e até na morte continuava a gozar.
Coitada da avó Joaquina, até dizia que quando ele morresse de verdade, já não ia ter mais lágrimas para chorar por ele, porque ele já lhas tinha secado em vida.
CONTINUA NO PRÓXIMO CAPITULO
LÍDIA FRADE
A AVÓ E AS SUAS CRENÇAS
Nesse tempo não havia inseminação artificial, toda a procriação era feita ao natural, havia uns vizinhos que tinham uma vaca e, para ela engravidar, o dono ia com ela mais de dez quilómetros a pé, isto para cada lado.
Era Maio, época de rebentaram as trovoadas fortíssimas, com trovões de fazer estremecer o chão, raios que iluminavam tudo por entre o negrume das trovoadas e as chuvas fortíssimas que caíam.
Era de meter medo, e foi por isso mesmo que a dona de uma vaca, já muito aflita, foi ter com a avó Joaquina, pedir-lhe que rezasse e acendesse uma lamparina a Santa Bárbara para que o filho chegasse a casa são e salvo com a vaquinha.
A avó Joaquina com toda a sua fé o fez, e foi com este cenário que ele e a vaca voltaram para casa quando ia chegando a noite, e a força maior da trovoada já tinha passado.
De vez em quando passava por ali um homem numa bicicleta, trazia da parte de traz uma grande canastra, fechada, para meter a mercadoria que ia comerciando pelo caminho. Parava na estrada e gritava, lá para baixo o seu pregão: ‘…ooooovvvvvzzzzziiiiiiiiiiigalinhas!’.
A mãe ou a avó gritavam cá de baixo, se tinham ou não alguma coisa para vender, os ovos era sempre uma dúzia com treze para compensar algum que se partisse, e as galinhas eram avaliadas a olho.
O homem pegava na galinha, pelas asas, fazia com o braço como se fosse uma balança, abaixo e acima, e dizia para a Julieta ‘por esta dou-lhe tanto’, e o tal tanto nunca era o mesmo para todas, dava um valor conforme lhe parecia o peso.
Era o mesmo com o valor dos coelhos, eram também uma criação abundante a nível familiar, as coelhas eram escolhidas entre as melhores descendências para fazerem boa criação.
Havia sempre um bom coelho reprodutor guardado numa coelheira à parte, só via alguma coelha quando Julieta ou a avó Joaquina entendiam ter chegado o tempo para elas emprenharem.
O que acontecia na mesma coelha, várias vezes por ano, tendo pelo menos três ninhadas, desde o Outono, Inverno e Primavera. Depois paravam de as reproduzir, para que os coelhitos chegassem bem ao Verão. Assim já estariam meio criados e mais resistentes para ultrapassarem a época da doença que aparecia no Verão, e com ele o picar das melgas.
Quando elas ficavam prenhas, a avó Joaquina conseguia verificar mesmo se estavam apalpando a barriga da coelha, para sentir os grânulos dos coelhinhos em formação. Essas eram logo separadas, as coelheiras limpas, as lousas preenchidas com palhinha limpinha, para fazerem os ninhos.
Nesse trabalho as coelhitas ajeitavam muito bem a palha, levavam as palhas na boca cheia, tipo molhinho, arrancavam os próprios pelos com a boca, e faziam um ninho fofinho para aí nascerem os seus filhotes.
Era um trabalho que Dalila não perdia, o da mãe coelha, lindo de ver: ela ficava parada ao pé da coelheira a observar esta azáfama da coelha, mas a avó não deixava que lhe mexesse, nem que se aproximasse, porque a coelha podia enjeitar, e não cuidar bem dos coelhinhos, quando eles nascessem.
O AVÔ ZÉ
Agora um momento para se falar do avô Zé Franquinho, o seu nome de família mesmo era José da Silva Frade, nascido no Grainho, de uma grande família Frades e, por estranho que pareça, Dalila, a sua neta mais velha, era a única que tinha o nome dele completo, Silva Frade, sendo o Frade o que sempre gosta de utilizar em assinatura.
Todas as pessoas lhes chamavam desde pequeno Zé Franquinho, pela sua maneira de ser, uma pessoa que dava tudo a todo o mundo, o que era dele era também de quem mais precisasse, daí o ser amigo, o ser franco, na sua maneira de se entregar aos outros, e a raiz da sua alcunha, Zé Franquinho.
Partindo da visualização de imagens da infância de Dalila do seu avô Zé, desponta sempre a dele impecavelmente vestido, calça e casaco, chapéu na cabeça e, fizesse chuva ou sol, um chapéu-de-chuva pendurado no braço, uma pastinha na mão, a subir a serventia rumo à estrada.
Começava ali os muitos quilómetros que percorria durante um dia da sua vida, e isto porque nunca ninguém o via utilizar o transporte público, e todos os dias saía para o seu ganha-pão, a venda de lotaria. Dalila sempre conheceu bem o avô Zé, apenas, o avô vendedor de lotaria.
O avô vinha de uma família de classe média, ao longo da vida e com alguns azares foi perdendo alguns bens, mas a aparência e maneira de estar na vida essa permaneceu.
No entanto parece ter sido uma pessoa incompreendida, desajustada, um revoltado com a vida que procurava viver à sua maneira, num meio que não seria o seu, por natureza, mas com quem também não procurava criar muitos laços.
Além de outros problemas apanhou uma doença pulmonar, ainda novo, enfermidade muito difícil de tratar na época, nesses anos trinta, depois advém daí a sua fragilidade para certos trabalhos, a que se junta também um problema de pigmentação na pele, com manchas brancas, e razão para andar sempre de chapéu-de-chuva-ou-sol, porque andava a pé, num Ribatejo ardente, e para se proteger desse sol inclemente.
Não queria tornar-se pesado no agregado familiar, onde não trabalhava - e eram sete pessoas a comer - e o avô Zé pouco ou nada comia em casa, saía logo de manhã e petiscava por onde andava, um dia por cada lado, e todos os dias, até no fim-de-semana.
Tinha os dias certos e os clientes certos em cada localidade, pelas terras vizinhas, a sul, no sentido de Santarém, a sua cidade, onde já tinha sido comerciante, e onde possuíra essa casa, onde morara, e que havia perdido.
No sentido norte, não gostava de ir - dizia que ‘do lado de Almoster, nem homem nem mulher, nem nada que de lá vier’ - primeiro porque não gostava do genro, que era do lado norte, e não gostava daquela Freguesia onde quem mandava era um conde que era o Regedor.
E na época o cemitério, aí em Almoster também, era uma autêntica charneca, onde havia poucas campas arranjadas, só quem mais tinha é que podia ter um jazigo, e as campas eram poucas até, só terra, umas placas poucas, feias, umas chapas de identificação pintadas de preto, e onde havia mato por todo o lado, por não terem obrigatoriedade de fazer mais por um local onde os restos mortais mereciam descansar com mais dignidade.
Por isso tudo, e mais algumas ideias que não proferiu, sempre pediu em casa que quando morresse o enterrassem em Santarém, não queria ir para Almoster nem morto. A avó e Julieta fizeram-lhe depois a última vontade, o funeral foi para Santarém.
E como estamos a falar da morte, passo a contar um episódio deveras peculiar, passado com este avô. Certa vez o avô Zé adoeceu. Como o seu estado já era visivelmente grave e não sabiam como resolver a questão em casa, a mãe foi chamar o médico dele, o Dr. Costa, era um médico da família, já muito velhote.
O médico chegou num carro muito antigo, com motorista, desceu já todo coxo, e teve que ser ajudado no resto do caminho, onde o carro não podia ir.
Entrou em casa, levaram-no ao quarto para ver o doente, e o senhor Doutor só disse ‘então que partida é que este Zé Frade nos está a pregar agora?’. Julieta e Joaquina ficaram á espera que ele lhes desse a resposta. Quando saiu do quarto disse-lhes: ‘pois é raparigas, desta vez não há mais nada a fazer, podem chamar o cangalheiro.’
Para Julieta não ir a Santarém - sempre eram dez quilómetros - ele mesmo se encarregou de fazer a participação à funerária, deixando já o óbito assinado.
A partir daquele momento elas todas aflitas começaram a chorar, e até a gritar na rua para as vizinhas ouvirem, o pranto de morte, e Julieta retirou a roupa que tinham sempre preparada numa gaveta, era a roupa melhor, para a mortalha.
Julieta vestiu-o impecável, como ele gostava, mudou a roupa da cama alta de ferro onde ele dormia, compôs ainda com uma colcha nova, também guardada para o efeito, deitou-o esticadinho por cima da colcha, os braços cruzados no peito, tapou com um lençol branco bordado e com renda grande, do seu enxoval, foi ainda colocado, a tapar a cara, um lenço de assoar, também ele todo branco, que fazia parte da roupa apropriada para a mortalha.
Com tudo pronto, era as posições do costume ocupadas para o velório, a avó sentada perto, as vizinhas tinham já tomado conhecimento e voltariam mais tarde, e o cangalheiro também logo chegaria.
E passaram duas ou três horas, chegou o caixão, os homens entraram, tudo certo, havia que passar o corpo para o caixão, tudo no quarto preparado, os homens agarram o corpo, mas largam de novo, analisaram o avô, desconfiados.
Pediram um espelho a Julieta, que ela prontamente foi buscar, correndo a sua casa, e chegaram o espelho junto da boca do avô Zé, esperaram algum tempo, retiraram e analisaram o espelho, não havia dúvida, estava com vida, a sua respiração estava no espelho.
A avó Joaquina deu-lhe um fanico, e tombou no chão toda vestida de viúva, Julieta ficou perplexa sem saber o que fazer, mas o sangue frio dos cangalheiros ajudou a remeter tudo na ordem.
A avó foi reanimada, a mãe foi retirar o fato e vestir o avô para continuar aconchegado na cama, os homens foram de novo para Santarém participar o que se passava, ao médico, que voltou de seguida. O médico veio, e pediu desculpa pelo engano, deu-lhe logo uma injecção, passou receituário que a mãe, aproveitando a boleia do carro do médico, se apressou a ir aviar à farmácia, a Santarém.
Mesmo sendo apenas um erro médico, a avó chorava e dizia que o avô tinha feito de propósito para a experimentar, que a tinha feito passar uma vergonha, chorava, e reclamava, que ele tinha gozado com ela toda a vida, e até na morte continuava a gozar.
Coitada da avó Joaquina, até dizia que quando ele morresse de verdade, já não ia ter mais lágrimas para chorar por ele, porque ele já lhas tinha secado em vida.
LÍDIA FRADE
domingo, 25 de julho de 2010
TRADIÇÃO DE NOSSA SENHORA DAS CANDEIAS
CAPITULO 11º
TRADIÇÃO DE NOSSA SENHORA DAS CANDEIAS
Já descrevemos a avó Joaquina que era a doçura da família, mas quase tudo o que se passa nesta fazenda tem a participação da avó, por isso mesmo vamos falando do que ela ensinava, para além das histórias e das orações que sabia, lindas.
Contava, é verdade, muitas histórias de quando ela era nova, o preço das coisas dessa época, o que as fazia rir imenso: por exemplo, o preço da cama dela quando casou, e outras coisas que até podiam ser inventadas, mas que as divertiam, ela já nem falavam em escudos, era em centavos, e reis.
Uma tradição que nunca esqueceram e que ela lhes ensinou, era no dia de Nossa Senhora das Candeias, dia 2 de Fevereiro, já não se fazia com frequência mas num ano a avó ensinou, e foi fazer com elas.
O encanto daquela noite foi muito bonito e mágico e, durante o dia a avó tinha mandado apanhar nas barreiras, debaixo das aroeiras, uma cesta de cascas de caracóis, ou seja cascas vazias de caracoletas mortas.
Depois, nos preparativos seguintes, ensinou a fazer uma torcida de uma malha de algodão fina, tudo bem torcidinho e dobrado, que iria servir de pavio, e foi colocado um dentro de cada caracol, acabando de se encher as cascas com um pouco de azeite.
Não chovia, a noite estava boa para o que era preciso fazer, já noite escura a avó foi com elas, levou tudo numa cestinha, os fósforos com que foi acendendo cada pavio que estava com a ponta de fora da casca, e elas iam colocando no pé de cada oliveira, viradas com as luzes para o lado da casa.
O olival focou lindo, cada oliveira cada luzinha, perdidas naquela noite escura, elas acharam tão lindo tudo aquilo, enquanto o azeite foi durando. Depois, quando as luzes se iam apagando, uma agora, outra depois, elas iam contando, primeiro as que se apagavam, depois as que restavam, e não queriam ir para casa, tinham de saborear bem até se apagar a última luz do olival.
Nesse dia Julieta sempre tinha a farinha e o azeite para fazer os fritos, diziam que era preciso fritar em azeite para ‘alumiar’ Nossa Senhora, se não se fizesse fritos teriam de fritar neste dia dois de Fevereiro nem que fosse umas fatias ou uns ovos, mas neste ano a Nossa Senhora das Candeias foi iluminada duplamente, e tudo isto para terem a protecção, num bom ano de safra de azeitona.
Todos os anos tinham dois dias de festa seguidos lá em casa, o dia de Nossa Senhora das Candeias e o dia seguinte, o dia três de Fevereiro, que era o dia dos anos de Lisete, não era grande festa mas sempre ficava lembrado de algum modo.
A FESTA DOS ANOS DE LISETE E O CASTIGO
Perdura até a lembrança, um ano houve em que estavam sozinhas com a avó Joaquina, era o dia dos anos da Lisete, estavam a viver com mais dificuldades, então a avó fez uma surpresa para o dia dos seus anos.
Chegava até lá um peixeiro alguns dias por semana, era o Sr. Raul, que vinha das Fontainhas, andava com duas canastas divididas e suspensas por um pau que ele punha ao ombro, uma na frente outra atrás, andava mais de vinte quilómetros para vender o seu peixinho, sempre a pé.
Foi ao Sr. Raul que a avó comprou dois quilos de chicharros, que era baratíssimo na época, e então foi assim a festa dos anos de Lisete. Chicharro com azeite e vinagre para molhar pãozinho até quererem, festa de gente pobre, mas elas é que gostaram muito, do gesto da avó, porque cada um festejava como podia, era preciso que elas sentissem que havia festa, e elas estavam bem felizes com o aniversário da Lisete.
*
Continuando a falar da avó Joaquina, vamos contar outra situação também passada com a Lisete, sobre um castigo que a avó lhe aplicou, e que Dalila também não esqueceu pelo lado negativo, tal como não esqueceu as coisas boas, pois tudo pode marcar, cada momento, cada recordação, sejam negativos ou positivos.
Dalila vinha a chegar da escola com Amália, eram as únicas que já andavam na escola, quando vêm Lisete muito triste a chorar, sentada no caminho antes de chegar a casa, e Dalila perguntou o que ela tinha. Lisete cada vez chorava mais, e foi então que, ao aproximar-se, Dalila viu o que havia sucedido.
Ficou revoltada, triste, furiosa, pela crueldade do castigo aplicado, largou a mala da escola, correu para a Lisete, desatou-lhe as mãos, agarrou-se a ela a chorar, a sua querida mana, que castigo tão bárbaro, a avó tinha-lhe atado as mãos atrás das costas com um cordel, pela maldade que ela tinha feito.
E Lisete tinha rasgado o seu vestido na cintura, separou o corpo da saia, na parte da frente, parecendo ser maldade de criança, mas o castigo da avó de modo algum seria aplicável, era duro demais para a pequenita Lisete, e também para a compreensão de Dalila.
No fim de a acalmar, Dalila foi dizer à avó Joaquina que havia muitas maneiras de castigar, assim não, que nunca mais desse um castigo daqueles às suas irmãs.
CONTINUA NO PRÓXIMO CAPITULO
LIDIA FRADE
MEUS MANDAMENTOS

MEUS MANDAMENTOS
Ser forte, e vencer
Sem olhar, ver mais além!
Ver o nada, ou o ninguém!
Calar mas não esquecer,
Lutar sempre com paixão
Até ao ter!
Poder voar no sonho
Mas os pés em terra firme,
Sempre ter!
Lado a lado
Correr com o tempo
E nunca á fraqueza ceder!
Com força de vida
Ou de sorte
Em cada etapa vencer!
Não deixar passar ao lado
O momento certo
Sem o sentir e ver!
Conseguir que a luta
Tenha a dimensão do querer!
E, gritar bem alto
Em grito de vitória
Por essa vitória,
Que nos deu prazer!
POEMA DO LIVRO, "AMOR ETERNO, INTERGNO E SILÊNCIO"
quarta-feira, 21 de julho de 2010
IGREJA DE SANTA MARIA DE ALMOSTER
FONTE DE SANTA MARIA, ALMOSTER
Fonte Santa, nestas águas, nesta corrente e caudal, nascido das rochas debaixo da Igreja, outrora se vinham banhar as pessoas com mal de pele, aqui traziam as crianças para fazer a cura das suas feridas, assim se conseguiam tratar, a dar a esta fonte o nome de Fonte Santa, mesmo que o tratamento fosse apenas, a higiene regular, em água pura. segunda-feira, 12 de julho de 2010
AS COSTURAS DA AVÓ JOAQUINA
10º CAPITULO AS COSTURAS DA AVÓ JOAQUINA
Essa actividade foi algo que marcou também a vida de Dalila, a avó começou por lhe entregar as calças de cotim - dos trabalhos que fazia para os seus fregueses - para ela cortar as pontas de linhas, e assim passou a participar no trabalho de costura.
A avó era a costureira da terra, tinha os seus clientes certos, trabalhava mais para homens do que para mulheres, isto porque os homens estragavam mais as suas roupas nos trabalhos do campo, roupas que eram sempre as mesmas, usadas durante uma semana, e só lavadas de semana a semana.
Fazia calças e camisas novas ou coletes, quando era arranjos colocava folhas da frente ou meias folhas nas calças, ou folhas inteiras, ainda os fundilhos, as meias costas nas camisas, meias mangas ou colarinhos, muitas vezes eram aproveitadas apenas as fraldas das camisas, que, como andavam por dentro das calças, não estavam por isso expostas tanto ao sol como ao suor, e não estavam queimadas, ressequidas, ou rotas, e assim poupavam uns vinte e cinco centímetros de tecido, o que seria muito importante para quem tinha pouco dinheiro.
As mulheres também mandavam fazer, mas eram mais poupadas nas suas roupas, os tempos eram difíceis e os seus homens é que não podiam andar rotos a trabalhar.
A avó Joaquina ensinava-lhe a cortar as pontas de linhas das calças e coletes dos homens, foi assim que começou a gostar de costura, e Dalila de facto tinha mesmo jeito para tal tarefa, sabe que desde os sete ou oito anos que cosia com uma agulha os trapinhos da avó.
Certa vez a mãe fez uma camisa de riscas e quadrados em azul vermelho e branco para o pai, ela gostava muito do tecido, pediu à mãe para lhe cortar uma saia para a boneca, do resto do tecido, e a mãe cortou uma saia godés.
Ela coseu, fez bainha e cós, e ficou muito vaidosa do seu trabalho, a saia estava linda e pouco tempo depois a sua madrinha, que vivia na Amadora, foi visitá-las - o que era raro por viver na cidade - e Dalila foi logo buscar a saia da boneca, toda contente, para mostrar a sua obra à sua madrinha. Foi a primeira vez que alguém elogiou tanto o seu trabalho, ela ficou muito feliz e vaidosa com esse elogio.
Foram assim coisas lindas e simples que a marcaram, porque nunca esqueceu, assim como recorda que foi também a avó que a ensinou a casear, pois tudo isso era feito por elas, as máquinas desse tempo não faziam casas nas suas obras em tecido, como as de hoje.
COMO TRATAVAM DO GADO
Dos trabalhos que a família lhes mandava fazer, do que ela gostava muito era apanhar folha de cana para os burros e macho comerem. Mandavam, por exemplo, apanhar dez mãos cheias para cada animal, e assim era feito.
Puxavam as canas, começava-se por baixo, a desfolhar, e quando chegava ao fim da cana, tinha uma grande e apertada mão cheia de folhas, dava a volta com uma folha, entalava a ponta, e ficava atada - tudo isso tinha aprendido com a avó ou a mãe.
Depois era só ir contando as mãos, vezes os burros, fazer em molhos grandes, levar para o palheiro, e distribuir pelas manjedouras.
Já as ovelhas, essas comiam folhas de videiras. No fim da vindima, se elas não podiam entrar na vinha por haver alguma sementeira, como favas ou ervilhas que elas destruiriam, apanhava para cestos ou sacas, as parras, e levava para o curral. Era uma época em que ainda não tinham rebentado as ervas, se andavam nas terras pouco tinham de comer, e as parras eram um complemento alimentar do Outono.
Algumas vezes iam guardar as ovelhas e os perus para as terras do Sr. Coronel, onde também iam outros miúdos guardar o seu gado, e enquanto o gado pastava eles brincavam, uma das brincadeiras, para além de andar aos ninhos, era escorregar pela encosta abaixo.
Sentados nas pernadas dos piteirós ou nas folhas grandes das piteiras com os picos cortados, para não se picarem, deslizavam assim, e quando se gastavam tais suportes, por tanto rasparem o chão, arranjava-se mais, o material não faltava.
Prendiam algumas ovelhas mais velhas, para as outras não fugirem para longe, com cordas, nas cabeçadas, ou atando a corda a uma mão, e com uma estaca pregada no chão.
Se as ovelhas estavam prenhas, era normal, em fim do tempo ter mais cuidados, mas algumas vezes elas tinham as crias nas terras. Dalila chegava até a ajudar em alguns partos e, de volta para casa, os filhotes estando ainda muito fraquinhos, tinha de trazê-los ao colo, senão não aguentariam o caminho.
Quando as crias tinham dois dias a avó Joaquina cortava-lhe o rabo, isto às ovelhas, essa era operação que Dalila não gostava, mas se não havia mais ninguém por perto tinha de ser ela a segurar a borreguinha.
Atava-se os pés e mãos com um cordel, o rabo era posto por cima de um cepo de árvore onde se cortava a lenha, e a avó com uma machadita e um golpe certeiro, de uma só vez, cortava-lhe a cauda e lá ficava o bicharoco sem rabo.
Depois era tratado, desinfectado, e a avó punha-lhe cinza da fornalha - dizia que era para proteger - assim a cinza colava na ferida e não deixava que, por exemplo, as moscas pousassem e incomodassem a borreguinha, e repetia-o durante alguns dias até estar sarado.
Dalila achava que a borreguita sofria e, perguntava porque tinham de fazer aquele trabalho, a avó só dizia que era para ser diferente do carneiro, quando fosse grande, e comparava as raparigas, que também lhes furavam as orelhas e colocavam brincos para serem diferentes dos rapazes, e a diferença das ovelhas era o rabo.
A tarefa de guardar os perus era mais complicada, não podiam brincar muito, eles se não encontrassem comida andavam imenso, e se não estivessem atentas quando iam a olhar já não sabiam para onde tinham ido.
GA
As galinhas, os patos, ou os perus, tinham coisas muito especiais e particulares, como quando Julieta ou a avó Joaquina deitavam a postura de ovos para elas chocarem e nascerem as ninhadas, então as galinhas começavam ‘a falar a choco’, como dizia a avó, esse falar a choco era uma ‘voz’ mais grossa, e procuravam ficar aninhadas nos cestos onde punham os ovos, para os chocar.
As galinhas, os patos, ou os perus, tinham coisas muito especiais e particulares, como quando Julieta ou a avó Joaquina deitavam a postura de ovos para elas chocarem e nascerem as ninhadas, então as galinhas começavam ‘a falar a choco’, como dizia a avó, esse falar a choco era uma ‘voz’ mais grossa, e procuravam ficar aninhadas nos cestos onde punham os ovos, para os chocar.
Ficavam com uma espécie de febre, a avó escolhia os ovos com qualidade, das melhores galinhas, das mais bonitas, e galadas pelo galo bonito que sempre havia na capoeira, pois ela conhecia cada galinha e os ovos que tinham posto, e que nunca eram iguais, por isso a facilidade de escolher as melhores e mais bonitas.
A quantidade normal para uma galinha era de treze ovos, sempre número ímpar, mas a galinha depois não conseguia agasalhar debaixo de si mais que treze pintos, enquanto uma perua já levaria quinze ou mais, dependia do seu tamanho.
Quando havia trovoadas, e trovejava muito forte, a avó punha no cesto das galinhas chocas um ferro velho qualquer, dizia que era para os trovões não estragarem os ovos, senão os pintainhos morriam na casca antes do tempo previsto, as três semanas de incubação para o seu nascimento.
O rebentar do trovão fazia tremer tudo, e fazia mal aos ovos, mas se o ferro resolvia ou não o problema, Dalila não tem a certeza, ou talvez fosse apenas a crença da avó Joaquina.
O nascimento tinha um encanto enorme para Dalila quando chegava a hora ou o dia: eles começavam a picar a casca com o seu biquinho e, pouco a pouco, iam forçando até partirem. Depois, com os movimentos e a força iam tirando a cabeça para fora, ou por vezes eram elas, a avó ou a mãe, que ajudavam puxando para fora.
Se estavam muito tempo para furar a casca a avó dizia que tinham pouca força, então metia um pouco de aguardente na sua boca e depois, como se fosse um borrifador, borrifava os ovos todos dentro do cesto, e voltava a colocar a galinha em cima para os aquecer.
Tudo isto tinha um grande encanto na época para a criança que era Dalila, e gostava mesmo de participar no dia-a-dia familiar, e visto agora, a muita distância, o encanto está ainda todo nessas lindas recordações que guarda no seu coração, desses tempos e maneiras de viver que foram únicos.
Era com frequência também que as vizinhas, quando tinham alguma coelha e não possuíam coelho para as cobrir, irem pedir o coelho, que Julieta emprestava, ou então traziam elas as coelhas, e ficavam ali com o coelho um ou dois dias, e isso por vezes era o mais conveniente, para se resguardarem de doenças.
O mesmo acontecia igualmente com o carneiro da cobrição, que servia muitas vezes as ovelhas das vizinhas.
O mesmo acontecia igualmente com o carneiro da cobrição, que servia muitas vezes as ovelhas das vizinhas.
CONTINUA NO PROXIMO CAPITULO
APENAS MÃE
Nem o mar sem barcos
Se pode achar vazio.
Como eu,
Com os minutos contados
Ou descontados,
Nas horas paradas
Acordadas,
De cada noite fria.
Com as palavras multiplicadas,
Usadas, cansadas ou evitadas,
Mas bem presentes,
No recordar de cada dia.
Por uma estrada estreita,
Por um percurso feito
Por vertentes estonteantes,
Á velocidade que arrepia.
Pela violência da dor,
Sentida, contida,
Pelo grito calado,
Fechado.
Pelas dores de um parto magoado
Ou por ser,
APENAS, MÃE.
sábado, 3 de julho de 2010
quarta-feira, 30 de junho de 2010
9º CAPITULO...AS HISTÓRIAS DA AVÓ JOAQUINA
9º CAPITULO
AS HISTÓRIAS DA AVÓ
Era a avó Joaquina que lhes contava todas as histórias, as dos lobisomens, as das bruxas más, e até das mouras que, supostamente, viviam escondidas dentro das minas, e roubavam as meninas se elas lá fossem espreitar - as mouras levavam-nas e nunca mais viam os pais, nem os avós, era tudo uma desgraça.
Mas de todas as histórias a que Dalila mais gostava de ouvir era a de um rouxinol que, costumava sempre cantar ali em baixo, na vinha.
A história começava assim: o rouxinol era o pássaro mais amado de Nossa Senhora, e para ela cantava, pousado nas videiras, mas… como as videiras cresciam de noite, Nossa Senhora recomendava-lhe, ‘que não adormecesse enquanto a noite e a videira crescessem’, mas o rouxinol esqueceu-se e adormeceu e, silenciosamente, um anel de uma videira foi crescendo, crescendo de mansinho durante a noite, e foi prendendo o pezinho do rouxinol, suavemente, sem ele dar por tal situação.
Quando o rouxinol pela madrugada acordou, prepara-se para voar para outra árvore mas… não conseguia voar, nem conseguia soltar-se da videira, então começou a chorar e a lamentar-se, esse choro e esse lamento era o seu cantar, apesar de ser lindo, porque a sua voz era linda, mas dizia, recordando as recomendações: ‘Nossa Senhora disse, disse, que enquanto a noite, e a videira crescesse, que não dormisse, que não dormisse’.
E assim destas palavras se completa o cantar do rouxinol. Nossa Senhora foi libertá-lo, mas ele nunca mais esqueceu, e no seu cantar com as mesmas palavras, passou de geração em geração, na família dos rouxinóis, e continuam assim, com a recomendação de Nossa Senhora, e a mesma entoação no seu cantar.
*
Era com a avó Joaquina, que aprendiam a rezar, ela era a sua catequista, rezavam juntas, ensinava-lhes o Pai-Nosso pequenino e grande, o Anjo da Guarda também, de duas versões, orações a vários Santos e Santas, e até a Santa Barbara quando fazia trovões.
Quando havia a procissão da Senhora da Saúde na Ribeira de Santarém, a avó gostava muito de lá ir, mas nem todos os anos podia, também se gastava dinheiro, mas num ano levou lá Dalila, que, para além da Procissão, outras coisas houve que lhe prenderam a atenção.
Todas as pessoas aproveitavam aquele dia de festa, levavam o seu farnel e, ali, pelas encostas, nas sombras das oliveiras, todos comiam e faziam os seus piqueniques, e havia os vendedores de melancias, que todas as pessoas compravam para refrescar e completar as suas refeições.
Já na Procissão do Senhor dos Passos, para o Santíssimo Milagre, iam mais vezes com a avó, porque era muito devota, do Santíssimo, e a avó contava-lhes a História do Milagre, levava-as a ver Jesus em tamanho natural, que estava exposto, e foi lá que Dalila viu pela primeira vez um grande órgão de Igreja, no piso superior, que tocava música sacra e com um som divinal, que impressionou Dalila.
*
Na fazenda da família todos trabalhavam, mas tinham horas para tudo, para a escola, para brincar, e para trabalhar, mas era tudo um pouco entregue a si próprio, os pais nunca se preocupavam se as filhas tinham estudado ou não, se tinham feito os trabalhos da escola, isso era irrelevante.
Apenas quando chegavam à quarta classe, que era o topo do ensino obrigatório, e se não tinham estudado o suficiente para passar, então sim, e a sentença dos pais era ‘se não estudaste, agora há trabalho para fazer, e irmãs para cuidar’, simplesmente isto.
Quando era no Verão e fazia muito calor, era a hora da brincadeira, não tinham brinquedos, ninguém os comprava, nem os oferecia, mas elas inventavam, todos os caquinhos de louça partida que encontravam eram os pratos de louça para brincarem às casinhas.
Tinham também os trapinhos das costuras da avó, e ela ensinava a fazer as suas bonecas, ou por vezes era ela que as fazia com muito aprumo e gosto, e por isso mesmo, e pelas recordações de Dalila, nasce um poema dedicado às suas bonecas.
A MINHA BONECA
A minha boneca
Que eu fiz de trapos,
Não ficou careca
Nem lhe faltou sapatos.
Com braços de bunho,
De pano-cru, o corpo,
Filha do meu sonho
Ficou-lhe um pé torto.
Olhos de botão
Perlé na boca
Dei meu coração
A coisa tão pouca.
Fiz saia godés
E blusa de chita
Laços em viés
Que bem que lhe fica.
Suave lembrança
Boneca e princesa
Foi tempo de esperança
De menina, pobreza.
TEXTO E POEMA DE LÍDIA FRADE
sexta-feira, 25 de junho de 2010
NÃO QUERO ESQUECER
NÃO QUERO ESQUECER
Não quero esquecer
Que fui poeta
Do amor e da desgraça
Da vida,
Em neblina permanente,
Que me envolveu
A visão, a consciência,
Que me turvou a mente.
Não quero esquecer
Que fui poeta
Numa roda gigante
Que rodou, girou
Vertiginosamente.
Uma roda, uma bola
Uma capsula formada
Arrastada, tocada, batida,
Amolgada, magoada,
De incompreensão acumulada!
Seria a poesia a culpada?
Ou a força do desespero?
Mas tudo começou por ser poeta!
Pelas palavras confrontada
Entre o ser! O saber! O querer!
O tudo ou nada!
POEMA DO MEU LIVRO "AMOR ETERNO"
sexta-feira, 18 de junho de 2010
8 CAPITULO...DALILA PEQUENA MULHER
8º CAPITULO
DALILA PEQUENA MULHER
Dalila, como filha mais velha, ficou em casa, com mil recomendações, a tomar conta das irmãs, andavam elas, as mulheres, na encosta a trabalhar, de lá até se via perfeitamente a casa, e a mãe dissera que ‘se precisasse de alguma coisa’, para a chamar.
Mas Dalila não queria ser só a ama das manas, ela queria ser mais e, já que era dia de trabalho duro, que até tinha vindo uma mulher de fora, ela queria também trabalhar, e por isso mesmo se elas andavam a cavar, Dalila queria mostrar que também já era uma mulher para ajudar.
Começou por delegar esse cargo de ama, na sua irmã Amália, e ela foi ao trabalho, arrumou a cozinha, lavou louça, até a panela da sopa toda mascarrada, de fazer a comida no lume de lenha ela lavou. Acendeu o lume, colocou água na panela para fazer o almoço, queria ter já almoço feito quando a mãe chegasse.
Pensou um pouco e, resolveu fazer uma panela de sopa, couves lombardas com arroz, foi à horta apanhar uma couve, cortou-a com a faca em miudinho, lavou e meteu na panela, foi ao pacote do arroz, e meteu também um bocado dentro da panela, juntou sal e azeite, e tapou a panela para cozer.
Havia a mesa da cozinha, que ela queria alindar! Como não encontrou mais toalha nenhuma de mesa, colocou uma toalha turca de rosto, achou que assim podia resolver o problema que tinha, toalha é sempre toalha.
Foi procurar uma jarra a casa da mãe, porque estava na cozinha da avó, e a avó não tinha jarras, apanhou um grande ramo de flores, e colocou na jarra em cima da mesa e da toalha de limpar a cara, olhou e achou que estava bonita, a cozinha da avó enfeitada.
Na continuação dos seus trabalhos de dona de casa com nove anos e, ao procurar a tal toalha, encontrou uma camisa do pai que ela adorava, uma ideia lhe saltou, queria ficar diferente também na roupa, ficar mais mulher do que menina, despiu a sua roupa, e vestiu uma camisa de malha de seda azul com riscas brancas, que o pai tinha comprado lá para Lisboa, e que lhe servia agora de vestido.
Ela adorava aquela camisa, e para o pai também devia ser especial, ele andava a trabalhar em Lisboa, e da última vez que tinha vindo a casa, tinha chegado com aquela linda camisa, tinha um toque muito especial, aquela malha de seda, escorregante na sua delicadeza, e que Dalila desconhecia até ali, mas ficou deslumbrada, também porque ninguém ali naquela terra teria uma camisa igual à do seu pai.
Depois de tudo preparado em casa, e na sequência do seu trabalho, faltava lavar o biberão da sua irmã mais nova, a Graciete, e assim foi lavá-lo como via a mãe fazer.
Era uma garrafa, com uma chupeta que a mãe comprara na farmácia, e que tinha adaptado na garrafa. A forma de a lavar também era bem diferente das de hoje, que com todos os cuidados de lavagem até colocam as coisas num esterilizador próprio.
Pegou a garrafa, foi até junto de um monte de areia que havia perto da casa, meteu um pouco de areia dentro da garrafa, foi ao tanque onde estava sempre a água corrente e limpinha, meteu-a na garrafa, bateu muito bem batido para a areia arrancar os resíduos de leite, repetiu mais de uma vez, e ali estava o biberão bem limpinho para a próxima vez.
Mas alguma coisa teria de correr mal, este tanque tinha a beira rente à terra, estava cavado na terra e sem guarda, e ela de tanta água ter espalhado por ali com as suas lavagens, esbarrou, desequilibrou-se, cai mesmo de costas dentro do tanque, e como era enorme, era mais fundo do que o total da sua altura, esperneou, gritou quanto pode, mas a sua mãe não a ouviu, só que ela não desistiu até que conseguiu sair de lá sozinha.
Assustada, encharcada mas recuperada, voltou para casa, despiu a camisinha de malha de seda do pai, voltou a vestir a sua roupa, e entretanto chegaram elas, a mãe, a avó e a vizinha que andavam a trabalhar nas sementeiras. Tinha chegado a hora do almoço.
Quando a mãe vinha a chegar, já Amália foi a correr contar o que se tinha passado, que Dalila tinha caído dentro do tanque, é que ela gostava sempre de se antecipar com as novidades.
Quando Julieta entrou em casa viu o aparato da toalha e das flores em cima da mesa, fartou-se de rir e chamou a vizinha, que já ia subindo a serventia – o caminho secundário próprio da fazenda - para ir almoçar a casa, queria que ela visse o arranjo e o trabalho feito, e foi então que, toda vaidosa, Dalila lhes disse que estava a fazer couves com arroz para o almoço.
Foi festa de bom rir, até lhes contar o resto da história, a mãe ficou vaidosa da filha também, mas preocupada por causa do tanque, e misturado com ralhetes foi dizendo o ditado “ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo”. No fim de tudo foi ela que teve de retirar o biberão do tanque, pois Dalila conseguiu sair, mas a garrafa havia lá ficado.
LÍDIA FRADE
domingo, 13 de junho de 2010
sábado, 12 de junho de 2010
A MINHA RUA, FOTOS E POEMA, COM RIO TEJO EM FUNDO E MONTIJO DO OUTRO LADO
A MINHA RUA
Que é grande!!! Desanuviada
Com curvas e cruzamentos
Sinais que marcam os tempos
E Santa Beatriz, a bem amada
Em sua casa!!! A bela Igreja
Ali bem viradinha ao Tejo
Que sem pudores ou inveja
Olhando!!! Eu também vejo
Não miradouro… mais mirantes
Mas com espaços… recatados
É inspiração de amantes
Ou paragens… de enamorados
Pertinho das minhas janelas
Tem árvores com passarinhos
Pelas manhãs… bem tagarelas
Mas nunca vi…por lá os ninhos
Com excedentes de livreiros
Esta manhã ao acordar
Palravam bem… os parceiros
Pardais no parque?… nem pensar
A feira estava montada
Alguém lhes cedeu o local
No meu parque… pela calada
Livros escolares!... menos mal
É muito mais que tudo isso
É um local de eleição!!!
E a eleição do local!!!
Com a RTP a afirmação!
Tem a Santa Beatriz
Na missa dominical.
Se em vez de um primeiro andar,
eu morasse mais a cima,
Eu queria o setimo piso,
eaté de noite eu veria
os barcos iluminados
Aqui, no lindo tejo, a passar.
A MINHA RUA É UM LOCAL PREVILIGIADO, COM MUITO ESPAÇO VERDE, DE ONDE POSSO VER O TEJO, PENA É VIVER NO 1º ANDAR
A MINHA RUA, FOTOS E POEMA, COM RIO TEJO EM FUNDO E MONTIJO DO OUTRO LADO
IGREJA DE SANTA BEATRIZ, COM SUAS MULTIVALÊNCIAS

A MINHA RUA
Porque não…eu ir tentar
Continuar a vossa ideia
Amigos podem contar!
Vou activar a minha veia.
FALAR EU DA MINHA RUA
Que é grande!!! Desanuviada
Com curvas e cruzamentos
Sinais que marcam os tempos
E Santa Beatriz, a bem amada
Em sua casa!!! A bela Igreja
Ali bem viradinha ao Tejo
Que sem pudores ou inveja
Olhando!!! Eu também vejo
Não miradouro… mais mirantes
Mas com espaços… recatados
É inspiração de amantes
Ou paragens… de enamorados
Pertinho das minhas janelas
Tem árvores com passarinhos
Pelas manhãs… bem tagarelas
Mas nunca vi…por lá os ninhos
Com excedentes de livreiros
Esta manhã ao acordar
Palravam bem… os parceiros
Pardais no parque?… nem pensar
A feira estava montada
Alguém lhes cedeu o local
No meu parque… pela calada
Livros escolares!... menos mal
É muito mais que tudo isso
É um local de eleição!!!
E a eleição do local!!!
Com a RTP a afirmação!
Tem a Santa Beatriz
Na missa dominical.
Poema de Lídia Frade
Porque não…eu ir tentar
Continuar a vossa ideia
Amigos podem contar!
Vou activar a minha veia.
FALAR EU DA MINHA RUA
Que é grande!!! Desanuviada
Com curvas e cruzamentos
Sinais que marcam os tempos
E Santa Beatriz, a bem amada
Em sua casa!!! A bela Igreja
Ali bem viradinha ao Tejo
Que sem pudores ou inveja
Olhando!!! Eu também vejo
Não miradouro… mais mirantes
Mas com espaços… recatados
É inspiração de amantes
Ou paragens… de enamorados
Pertinho das minhas janelas
Tem árvores com passarinhos
Pelas manhãs… bem tagarelas
Mas nunca vi…por lá os ninhos
Com excedentes de livreiros
Esta manhã ao acordar
Palravam bem… os parceiros
Pardais no parque?… nem pensar
A feira estava montada
Alguém lhes cedeu o local
No meu parque… pela calada
Livros escolares!... menos mal
É muito mais que tudo isso
É um local de eleição!!!
E a eleição do local!!!
Com a RTP a afirmação!
Tem a Santa Beatriz
Na missa dominical.
Poema de Lídia Frade
quinta-feira, 10 de junho de 2010
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